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quarta-feira, 21 de agosto de 2013
O Verdi de Netrebko
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Don Carlo – Teatro Nacional de São Carlos, récita de 23 de Outubro de 2011

Pois bem, a verdade é que a dita reconciliação terá de sofrer mais um adiamento, posto que este Don Carlo deixou muito a desejar…
A opção de apresentar a versão da ópera em quatro actos é absolutamente legítima, mas comporta problemas. Desde logo, o espectador menos familiarizado com a obra terá dificuldade em compreender a lógica da trama, dado que o acto de Fontainebleau se encontra ausente. Há muito anos, em conversa com a mítica Karita Mattila, percebi a que ponto a ausência em questão era comprometedora. Aliás, Mattila recusava liminarmente interpretar a versão mais curta da ópera, ela que foi a maior Elisabeth de Valois dos últimos vinte anos – vide Don Carlos, sob a direcção de Pappano.
Começou mal a coisa, pois.
A encenação de S. Langridge roça o desastre, sobretudo pela transposição da trama para a época presente, mal conseguida, incoerente e trôpega. O jogo de ténis é absolutamente imbecil e causou embaraço no coro, quase estatelando uma das intérpretes no chão, que tropeçou numa das dezenas de bolas espalhadas pelo palco; lamentável. A gaiola / prisão (onde decorre o acto do auto-da-fé) é uma solução desastrosa, dramaticamente, mergulhando a trama no ridículo; inaceitável. Depois, há uma exploração do universo dark, que exaspera. Tudo é lúgubre…
Os cenários são foleiros, contando com detalhes pindéricos – a coroa sem cabeça, o túmulo do imperador, omnipresente, digno de um sem-abrigo, etc.
A direcção de Martin André foi trágica. Pergunto-me se o senhor em questão conhece a voz humana? Sistematicamente, a orquestra – em fortissimo – abafava os solistas, obrigados a berrar e esbracejar, para se fazerem ouvir. Entradas fora de tempo e desacertos, foi mato… Sem subtileza alguma, fomos bombardeados com uma sanfona ensurdecedora. Talvez André opte por mudar de vida! É que há feiras e circos ávidos de animadores musicais deste calibre…
O coro esteve coeso e harmonisos, particularmente inspirado no auto-da-fé.
Os solistas salvaram a honra do convento, com reservas…
Enrico Iori compôs um Filippo equilibrado e digno, austero e sofrido qb. Brilhou no Ella giammai m’ammo, bem acompanhado pelo violoncelo lírico, apesar do enquadramento cénico deplorável: levanta-se da cama, onde se encontra uma cortesã (?), em cuecas (!!!), compõe a fralda da camisa… fiquemos por aqui.
Don Carlo foi interpretado pelo jovial Giancarlo Mansalve. De um modo geral, cumpriu, abrilhantando a prestação com agudos ousados e afoitos. Embora a figura ajude, o jogo cénico torna a sua prestação pouco credível. Ladeou-o o Roderigo do grego Dimitri Platanias, também ele cumpridor e brioso, de voz lírica e melodiosa.
Ayk Martirossian propôs um Grand Inquisitor convencional, de voz baça e volume limitado. A pouca credibilidade da caracterização foi reforçada pela cadeira de rodas imposta pela imbecil encenação…
A Princesa Eboli foi interpretada pelo meio-soprano Enkelejda Shkosa, actriz versátil e generosa. Começou muito mal – Canzone del Velo -, com estridência e dificuldades na coloratura, terminando com um O Don Fatale correcto e digno. A voz apresenta limitações evidentes e sinais de desgaste, mas enfim…
Termino com a grande decepção da récita, a Elisabeta de La Matos.
A voz de Elisabete Matos é – no momento presente – enorme, volumosa e robusta. Estará em casa no território spinto, mas no lírico, a conversa é outra. Pagaria para não assistir a uma Amelia (Boccanegra) sua… Pago para não assistir a outra Elisabeta!
O vibrato da intérprete – omnipresente – incomodou-me muitíssimo, comprometendo a composição do personagem. Elisabeta é uma mulher digníssima, nobre e imaculada. A voz quer-se límpida e graciosa. Matos apresenta-nos uma Elisabete nos antípodas da concepção verdiana, terminando com um Tu che le vanità banalíssimo, sem ponta de elegância.
As boas-línguas disseram-me que a senhora se encontrava a recuperar de uma constipação. Pois seja, mas da decepção não nos livrou!
Pergunto-me se melhores dias virão, liricamente falando, para o nosso Teatro Nacional?
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(2,5/5)
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Os Monstros
Salzburgo - II
sábado, 6 de agosto de 2011
Aix '11 - I

Na edição do presente ano, Aix confirmou as suas raízes mozarteanas (A Clemência de Tito), revelando espaço e tolerância para expressões líricas mais próximas do contemporâneo... já longínquo (O Nariz). De permeio, A Transviada de Dessay soube a pouco...
domingo, 19 de dezembro de 2010
Don Roberto, infante do Mundo
(Roberto Alagna, como Carlo)
Há uns bons quinze anos, no Châtelet, Luc Bondy assinou uma encenação exemplar e brilhante de Don Carlos, a versão (original) francesa de Don Carlo, ora em cena no Met. O protagonista de então era o jovem e talentoso Roberto Alagna, grande estrela em ascensão, tida como a mais promissora figura da lírica verdiana. Na dita produção, o tenor franco – italiano compunha um Carlos heróico e pueril, de sangue fervilhante e audaz. Conquistou-me, desde a primeira nota.
Década e meia volvida, desta feita interpretando Carlo – o protagonista da versão italiana, em cinco actos -, Alagna reincarna esta mítica figura. Para que dúvidas não pairem no ar, o desempenho deste tenor constituiu a suma glória da récita de 11 de Dezembro.
A encenação de Nicholas Hytner pareceu-me um parente pobre da mencionada proposta de Bondy. A comparação impõe-se, dadas as semelhanças entre os dois trabalhos, nomeadamente no tocante ao peso das tonalidades – cinza, negro e escarlate. No caso de Bondy, o escarlate era sinónimo de libido, sendo – salvo erro – exclusivo dos amantes, Carlos e Isabelle de Valois. A opção foi, além de eficaz, de uma originalidade genial.
Hytner foi particularmente feliz na concepção sombria e lúgubre, que inundo de degradés cinza e preto. Fiel ao trabalho de Verdi – e Schiller, não esqueçamos -, o encenador destacou o essencial: toda a trama gira em torno da tragédia, do inconciliável, do incompatível. Em Don Carlo(s), não há compromisso possível, sendo o conflito resolvido no termo da existência.
Embora a encenação tivesse servido com eficácia a progressão da trama, contámos com um trabalho plástico que se situa, algures, entre o pindérico - Auto-da-fé, com um Cristo horrendo – e o convencional, pró-minimalista (floresta de Fontainebleau).
Alagna, como referi, foi a grande estrela da tarde. O seu Carlo, embora amadurecido e abeirando-se dos cinquenta anos de existência, mantém-se absolutamente estrelar. Há jovialidade a rodos, uma paixão incontida e nobreza na sua interpretação. A voz guarda a luminosidade (quase) original, grande e cheia, perfeitamente lírica e com uma limpidez notável. No seu elemento natural, ajudado pela esbelta figura, declamou com inegável poesia.
Keenlyside revelou um Rodrigo teatralmente deslumbrante – nobre e grandioso, triunfando na cena da morte -, embora curto em volume e algo estranho ao estilo verdiano. Faltou-lhe robustez… Quem brilha em Mozart, raramente impressiona em Verdi!
Furlanetto terá sido a segunda grande figura da récita, em matéria de solistas. Apesar das hesitações, abrilhantou o momento de glória de Filipe, Ella giammai m’amo. Também o Grande Inquisidor, de Halfvarson, impressionou, mais pela aterradora recriação – impregnada de malignidade -, do que pela nobreza dos graves, aqui e ali, bastante aquém do ideal…
No capítulo feminino, deparámos com um nível menos sólido. Anna Smirnova esteve nos antípodas do espírito de Eboli. Apesar de correcta no O Don Fatale, a mezzo revelou-se cavernosa e matrona, no porte e gestos, além de deter uma voz excessivamente cheia e pesada. Eboli é uma princesa, não uma bruxa! Será pérfida, mas não abusemos!!! Sugiro que a senhora se dedique ao estudo do mezzo verdiano, detendo-se particularmente nas expressões de Cossotto.
Marina Poplavskaya, a Senhora Met do momento, compôs uma Elisabeth vocalmente muito interessante. Seguríssima, tecnicamente, inundou a sua personagem de lirismo. Porém, apesar do brilho e limpidez da voz, esta enferma de certa magreza. Elisabeth demanda um soprano fluente em spinto e envergadura, à la Mattila, por exemplo. Poplavskaya detém o spinto, sendo parca no segundo quesito. É pena! Ser uma Desdemona ideal não é sinónimo de impressionar em Elisabeth…
Termino com a segunda grande glória da récita, a exemplar direcção de Nézet-Séguin, que dirigiu a melhor orquestra lírica do mundo, com um brilho e craveira absolutamente impressionantes. Visivelmente, há vida para além das estrelas venezuelanas – e não me refiro ao miserável Chávez…
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(4/5)
Da lírica homo
Claro que há uma ligação fraterna, amistosa até, entre ambos. Mas, paralelamente, o amor de Rodrigo por Carlos suscita uma interrogação e dúvida.
Evidentemente, esta homossexualidade não é agida, estando, muito provavelmente, longe da consciência de ambos os personagens.
A leitura psicanalítica parte, justamente, da compreensão latente, que subjaz ao manifesto. Como se sabe, à superfície, Rodrigo nutre uma nobre admiração e respeito pelo protagonista da obra. Contudo, caro e paciente leitor, negar a extensão do vínculo descrito, até às franjas do amor homossexual, na linha platónica. parece-me impossível! Visivelmente, não são só os psicanalistas a percebê-lo...
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Don Carlo & Don Giovanni
Por sugestão de alguns leitores, proponho um encontro, no primeiro entreacto, no jardim que dá para o bar.
Enfim, privarão com Il Dissoluto Punito, e eu convosco :)
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Don Carlo, em antevisão


(Roberto Alagna, como protagonista de Don Carlo - Met Opera House, 2010)
Don Carlo corresponde à versão italiana – revista e actualizada – de Don Carlos, grand opéra francesa, estreada em Paris, em 1867. O original e sucedâneo inscrevem-se na plena maturidade verdiana – discurso melódico continuo (na linha do leitmotiv wagneriano), fluido, sem as árias características dos períodos precedentes (trilogia verdiana, por exemplo) -, cujo corolário se materializou em Otello e Falstaff.
Travei conhecimento com esta magistral peça lírica há muitos anos, via Solti. Como Carlo(s), também eu me encontrava preso a um amor impossível…
Solti enferma de um defeito incontornável, a meu ver: uma Elisabete fatigada e desgastada, em final de carreira, Renata Tebaldi (por quem jamais nutri grande admiração artística, como é bem sabido).
Foi por ocasião da extraordinária encenação de Bondy, no Châtelet, que a ópera ecoou em mim de modo avassalador. De então em diante, tenho travado conhecimento com algumas interpretações, de entre as quais recordo a de Giulini (aqui comentada), que constitui uma das mais perfeitas realizações artísticas que conheço.
Antecipando o grande acontecimento que terá lugar a 11 do corrente mês, na Gulbenkian, via Met Opera House, eis a crítica da première da produção Nicholas Hytner de Don Carlo, na sala nova-iorquina:
«Though not without flaws, Verdi’s “Don Carlo” is the “Hamlet” of Italian opera. Every production of this profound and challenging work is a major venture for an opera company. The Metropolitan Opera has to be pleased, over all, with its new staging by the eminent English director Nicholas Hytner in his company debut, which opened on Monday and earned an enthusiastic ovation. No booing of the production team on this premiere night.
The cast is mostly excellent. Roberto Alagna sings the touchstone title role, and this gifted tenor, who has gone through periods of shaky singing and made some ill-considered career moves, sounds better than he has in 10 years. The big news may have been the conducting by Yannick Nézet-Séguin, the 35-year-old Canadian designated to become the music director of the Philadelphia Orchestra. “Don Carlo” is a sizable assignment, literally. The opera, first presented in Paris in 1867, is performed here in its five-act version in Italian, basically Verdi’s final 1886 revision of this much-revised score. With two intermissions, the performance lasted four and a half hours.
But Mr. Nézet-Séguin, who made his Met debut last season with an exciting if impetuous “Carmen,” drew a richly textured, inexorably paced and vividly characterized account of Verdi’s epic score from the great Met orchestra. His excitement sometimes got the better of him. In a few arias with undulant accompaniment patterns he needed a phrase or two to find the groove and get with his singers. But he is a born communicator who brought youthful passion and precocious insight to his work.
New productions are always grist for debate in the opera world. But it is hard to imagine what opera buffs might object to in this one, a co-production with the Royal Opera in London (presented there in 2008) and the Norwegian National Opera and Ballet. Mr. Hytner’s impressively fluid staging places the cast in evocative period costumes (by Bob Crowley) against the backdrops of spare, modern-looking sets (also by Mr. Crowley).
If there is nothing very daring about the production, it is alive with striking images. The ominous monastery of San Yuste in Spain is framed by looming black walls with rows of square windows through which crisscrossing shafts of sunlight shine. The scene in the public square where heretics are tormented by the crowd is played before an ornate gold church and culminates with the glimpse of bodies on a flaming pyre in the background. No regietheater metaphorical nonsense here.
Verdi’s opera, adapted from a dramatic poem by Schiller, plays loose with the history of Philip II of Spain, who in an attempt to forge peace with France decides to marry Elisabeth, the daughter of Henry II, who had been intended for Philip’s son and heir, Don Carlo. Crowd scenes and spectacle were requisite for opera in Paris, and Verdi supplied them. Still, at its core the opera is a family drama, a story of powerful people made pawns during a time of religious fanaticism, who feel alienated from their inner selves.
The member of the cast who best exemplified the Italianate Verdi style was the bass Ferruccio Furlanetto, as Philip. The king is the opera’s most psychologically complex character. Marrying Elisabeth is not just a political maneuver but also the rash act of an older man who feels threatened by his dreamy, idealistic son. Philip is understandably paranoid, since the real authority in his realm is the ruthless Grand Inquisitor.
Mr. Furlanetto brought aching expressivity and stentorian sound to the scene in which Philip, in his lonely study at night, is overcome with anguish as he confronts the reality of his life: a young wife who has never loved him; a rebellious, contemptuous son; subjects who fear him.
The lovely Russian soprano Marina Poplavskaya, as Elisabeth, does not have a classic Verdi voice. Still, with her luminous singing, beautiful pianissimo high notes and unforced power, she was a noble, elegant Elisabeth. Somehow the cool Russian colorings of her voice brought out the apartness of the character, a young woman in a loveless marriage in a foreign land.
The duty-bound Elisabeth has just a few hours of joy, in Act I, the Fontainebleau scene. Carlo tracks down Elisabeth in France to see the woman he is supposed to marry. When they meet, they have an extended duet of blissful lyricism, which these young lovers relish. How could Verdi ever have sanctioned a version of this opera without the Fontainebleau act?
Born in France of Italian heritage, Mr. Alagna knows both styles intimately. His past problems have been not for want of style but for unreliable technique. He seems to have worked things out in recent years. In a few phrases he sounded leathery and rough, and he took a while to steady himself vocally in the opening scene. Still, much of his signing was poignant, ardent and supplely phrased.
For someone so good-looking and charismatic, Mr. Alagna can be surprisingly awkward onstage, as he was at times here, especially during solo scenes, when he looked stiff. But whenever he was joined by the baritone Simon Keenlyside, who sang Rodrigo, the Marquis of Posa and Carlo’s devoted friend, Mr. Alagna opened up in every way. Mr. Keenlyside is one of the most natural actors in opera. His Rodrigo is a naïve hothead out to win Carlo to the cause of the oppressed people of Flanders. Vocally, Mr. Keenlyside is no beefy Verdi baritone, and there was occasional effort in his singing. But the vocal resonance and emotional integrity of his performance made him an affecting Rodrigo.
The weak link was the Russian mezzo-soprano Anna Smirnova, in her Met debut, as Princess Eboli, though weak is hardly the word to describe her go-for-broke singing. Her sound was enormous, but there was too much raw bellowing. Eboli, a dark beauty who has been the king’s mistress, is a seductress but also a victim. She should be sultry, not blowsy.
The bass Eric Halfvarson was at once terrifying and pitiable as the blind, frail, avenging Grand Inquisitor. The soprano Layla Claire, in her Met debut, was an impish, bright-voiced Tebaldo, Elisabeth’s page. Alexei Tanovitsky, a bass in his Met debut, was an aptly chilling Friar, confronting the distraught Carlo in an early scene, then reappearing in the last confusing moment of the opera, when Carlo is attacked by Philip and his soldiers near the tomb of Charles V.
In Mr. Hytner’s intriguing staging of this scene, Carlo is badly wounded. The Friar, whose voice sounds to the Grand Inquisitor eerily like that of the dead emperor Charles, hovers over the prince. Does the Friar merely beckon Don Carlo into the cloister or invite him to cross over into the beyond? It’s the most mystifying moment of this Verdi masterpiece. »
terça-feira, 27 de julho de 2010
I Traviati - III, a derradeira apreciação

(Patrizia Ciofi)
Depois do que aqui foi dito, a respeito desta La Traviata, pouco haverá a acrescentar.
A glória da interpretação assenta, repito, na superlativa encenação de Carsen – que sublinha a conflitualidade Giorgio vs Alfredo (pela posse de Violetta), enfatizando a dimensão materialista, efémera e crua de uma trama, o mor das vezes, excessivamente romanceada –, bem como na prestação de Hvorostovsky.
Saccà cumpre, como Alfredo. A sua performance reitera a impossibilidade de ombrear com o rival: a figura é mais fraca, o timbre algo caricatural e a prestação cénica, pouco acima da mediania. Este Alfredo é um pobre neurótico – psicanaliticamente falando -, castrado e incapaz de afrontar a soberania paterna.
Quanto a Ciofi...
Patrizia Ciofi é uma actriz extraordinária, com provas dadas (o que dizer da sua Marie?!). No drama de Violetta, Ciofi leva a melhor, sublinhando a conflitualidade da sua personagem, ora mais puta (perversa), ora mais ambivalente (neurótica: ossia, balanceando entre o amor por Alfredo ou por Giorgio...). Vocalmente, há evidentes problemas de afinação, particularmente no acto I, cuja coloratura é assassina e implacável. Mais à vontade, nos derradeiros actos, a voz alia-se ao teatro, o seu forte.
Mazzel dirige uma orquestra mediana, morna e arrastada em excesso, com deslizes discretos.
Esta La Traviata reveste-se de algum interesse musical adicional, na medida em corresponde à versão original, estreada, justamente, no La Fenice, a 6 de Março de 1853. Os números desconhecidos do grande público não são assim tão negligenciáveis...
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(3,5/5)
domingo, 25 de julho de 2010
I Traviati - II, ossia Il Traviato

(Dmitri Hvorostovsky)
À semelhança de Tosca e Otello – para não me debruçar (ainda) sobre Eugene Onegin –, La Traviata é, também, susceptível de uma leitura psicanalítica, capaz de aclarar alguns pontos, merecedores de uma compreensão alternativa.
Dir-me-ão os mais cépticos – porventura, avessos a interpretações que dissolvam o peso do reprimido, psicanaliticamente falando – não ser legítimo ler o que o libretista / compositor não criou.
Ora, desde Freud, sabemos existir, em toda a produção humana, um conflito, conflito esse instalado na expressão autêntica: entre o que se diz e o que se pretende / deseja dizer / fazer, reina uma distancia imensa.
No tocante à ópera, claro está que, manifestamente, Floria ama Mario, Iago pretende destruir Otello e Violetta deseja Alfredo. Porém, como temos vindo a constatar – não sem um coro de resistentes (que está no seu pleno direito!) -, sob as aparências, escondem-se outras intenções e movimentações inconscientes.
Vem esta prosa a propósito da La Traviata que reabriu o La Fenice, em 2004, com Ciofi, Saccà e Hvorostovsky, nos papeis titulares. A encenação de Robert Carsen constitui, para mim, um dos maiores pontos de interesse desta produção.
Carsen revela uma profunda intuição psicanalítica, explicitando o conflito triangular que une Violetta, Alfredo e Giorgio.
O (grande) encenador opta por uma desconstrução da habitual imagem romântica de Violetta. A Senhora Valéry é uma puta de luxo, a que os senhores de oitocentos apelidaram cortesã (Dumas Filho, incluso). Carsen constrói a sua concepção de La Traviata numa linha que privilegia luxúria e materialismo. Há plumas, lantejoulas, ambientes a meia luz, dinheiro e lingerie provocadora a rodos, para gostos mais atrevidos! Coralistas boazudas e bailarinos abichanados, coiros e bolas de espelhos completam o ambiente dissoluto.
Aos olhos de Carsen, Violetta é – acima de tudo – uma meretriz de luxo, cuja conduta se rege pelo vil metal. Pontualmente, a rapariga cede ao coração, ma non troppo...
A Violetta de Robert Carsen será, pois, uma criatura da linha perversa, pouco dada a culpabilidades e arrependimentos românticos (e neuróticos).
A meu ver, a maior ousadia do metteur-en-scène decorre, justamente, do vínculo libidinoso que une Giorgio e a protagonista. Por artes do inconsciente, esta produção escolhe um Giorgio de óptima figura, timbre divino e articulação esplêndida. Dmitri Hvorostovsky, no auge da sua soberania lírica, compõe um Senhor Germont impressionante. Sob uma aparente rigidez, Giorgio abeira-se de Violetta, paulatinamente, insinuando-se, com um atrevimento diplomático...
Nos antípodas de Hvorostovsky, deparamos com um Saccà atontalhado, de timbre algo circense e caricatural.
Pergunto, à fiel leitora - e, por que não, ao fiel leitor -, que Violetta preteriria Giorgio, em favor de Alfredo, neste quadro?!
Ora, Carsen sublinha a trama triangular – um claro desdobramento do conflito edipianino -, em que o pai rivaliza com o filho, procurando conquistar o vértice feminino / materno do complexo triângulo.
A fraca figura e desempenho deste Alfredo são tributárias da ansiedade de castração: evidenciam uma criatura algo trôpega, incapaz de assumir uma disputa com o progenitor. No limite, o pobre Alfredo sai perdedor da luta! É por força da decisão paterna – a anuência do pai – que o pobre menino Germont se (re)abeira da, então, moribunda Valéry.
Posto isto, estou em crer que o móbil do gesto de Giorgio – suplicando que Violetta se afaste do desafortunado filho, pelas nobres razões, que todos conhecemos – decorre do seu desejo pela dita dama. O rival Alfredo é, por esta via sinuosa, liminarmente afastado...
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Maniforme, mas lúcido! A propósito de um embuste!!!

sexta-feira, 2 de julho de 2010
Palavras não eram ditas, ossia Últimas aquisições!


sexta-feira, 4 de junho de 2010
Otelíssimo
Zeffirelli, numa proposta datadíssima, pirosa – um guarda-roupa de fugir, de um realismo à feira do relógio, em cenários bafientos –, como sublinha Bondy, pretensamente, evoca o génio de Visconti. Porém, enquanto L. Visconti constitui a obra – prima, Zeffirelli recorda a prima do mestre – de – obras.
Vickers – o melhor Otello do mundo -, clama por Shakespeare, recriando-o. Revitaliza-o, verdianamente. A síntese é um assombro: teatro, poesia, declamação, interpretação, servidas por um instrumento vocal amplo e gloriosa, em pujança, riqueza expressiva e nobreza. O acto III deveria figurar nos manuais de interpretação operática: Jon Vickers canta com as vísceras, impregnando o seu protagonista de delírio, ciúme, ódio e desespero. No teatro, nem Del Monaco lhe chega aos calcanhares.
Ladeia-o a subtil Scotto, de voz colorida e técnica impecável, compondo uma Desdemona frágil e delicada, dilacerada pela corrosão psíquica do amante. Por fim, Macneil interpreta um Iago magnânimo na voz, mas titubeante na recriação teatral: a mímica é trôpega e a maquilhagem ridícula não ajudam muito...
Levine dirige uma orquestra pouco oleada, com tempi muito irregulares.
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(4/5)
quarta-feira, 2 de junho de 2010
quarta-feira, 21 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Sondra Radvanovsky

Rodvanovsky é um soprano americano de craveira. No território spinto verdiano, não tem rival, na actualidade. A sua Leonora (O Trovador) é um verdadeiro colosso, sendo a sua glória. Esteve prevista a sua presença em Lisboa, no tempo em que o TNSC era digno, justamente por ocasião de Il Trovatore, em 2001. Resta dizer que a intérprete anula as suas presenças amiúde... A mim, já me deu várias tampas, all over the world... Azares...
Bom, em todo o caso, já não estarei por terras do tio Sam por ocasião do lançamento deste registo obrigatório. Alguém me há-de valer, nem que seja o itunes!
quarta-feira, 31 de março de 2010
Últimas aquisições...






