domingo, 7 de setembro de 2008

Les DEUX ENFANTS du Régiment & Kleenex


(DECCA 074 3146)

Esta excelsa produção, montada em Génova, data de 2005, ano da graça de Flórez.

Cuidada e singela – despretensiosa, mas nada superficial -, a encenação transporta-nos para os anos 1940, decorrendo a trama em plena II Guerra Mundial.

Juan Diego Flórez compõe o melhor Tonio de sempre, ofuscando os dois grandes que o antecederam – Kraus, excessivamente sério, e Pavarotti, superficial em demasia. Nem o francês de pacotilha abala o seu trabalho!

O Tonio de Juan Diego transpira ingenuidade e emoção. O timbre é brilhante e luminoso, quente e pleno de afecto. Em nada se poupa, bisando sem hesitações Ah mes amis - daí em diante, foi o que se sabe: a proeza repetiu-se no Scala, Met e por aí fora (Lisboa inclusive!).

Os grandes homens são assim, nem à comoção se escapam. E nós, menos ainda... (os kleenex foram encetados nesta altura).



É bem verdade que a personagem de Flórez não convoca grande investimento dramático, mas o mais pequeno deslize, não raras vezes, redunda numa figura apatetada e tonta. O tenor peruano, por via desta magistral Tonio, mostra-nos que a figura interpretada não se limita à ligeireza e agilidade costumeiras. O seu Tonio é generoso, terno, apaixonado e heróico!!!

Ciofi, por seu lado, desenha uma Marie de mão cheia. Não tendo, nem o cristal, nem o veludo de uma Dessay – o timbre é, de facto, banalíssimo e há acidez em excesso nos agudos -, a soprano afirma-se cenicamente. E que importa quando uma incarnação é tão plena e rica?!

Vocalmente, há Maries’s que a ofuscam – Sutherland, Anderson, Dessay e até Sills - mas, no teatro, Patrícia Ciofi é inigualável! O histrionismo e labilidade da intérprete são notáveis: passa do riso às lágrimas com uma tal agilidade!

Obrigatórios são - antes de mais - a cena da lição de canto (início do acto II), absolutamente arrebatadora, pela graça desconcertante, e, num plano mais intimista, lírico e disfórico, C’en est donc fait, et mon sort va changer. No final deste último trecho, uma vez mais, o público enlouquece, Ciofi comove-se e eu também – sai outro kleenex...



Palmas ainda – muitas, muitas – para a hilariante Marquise de Francesca Franci, o sedutor Sulpice de Nicola Ulivieri e a generosa, enérgica e feérica direcção de Frizza.
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2 comentários:

Sill Scaroni disse...

Ópera com delírios psicanalíticos.
Gostei muito do blog.

Il Dissoluto Punito disse...

Cara sill scaroni,

Volte sempre!