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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

De Berlim a Paris - Ute Lemper: Fundação Calouste Gulbenkian, 16 de Janeiro de 2011


(Ute Lemper)

Há cerca de dez anos, em Paris, na Opéra Comique, bafejado pela sorte, assisti a uma performance de Ute Lemper, em plena orquestra... por escassos 50 FF! Jurei que não a perderia de vista....

Heterodoxa ao extremo - para os líricos mais conservadores -, algures entre a lírica novecentista, o Cabaret e o Musical, Lemper movimenta-se majestosamente, sem um concorrente que seja à sua altura.

É uma artista plena, com uma voz singularíssima, absolutamente camaleónica. Capaz das maiores acrobacias - não confundir com pirotecnia lírica (ossia, coloratura)! -, graças a uma técnica germânica. Lemper cultiva a ironia e corrosão: calça Weil e veste Brel, como ninguém! Cenicamente, transpira sensualidade... e pimenta preta! A uma graciosidade exuberante, acrescenta desconcerto. Ao doce e subtil, junta a acidez citrina...

Para felicidade minha, ontem, na Gulbenkian, Dame Lemper proporcionou um dos mais extraordinários momentos musicais a que assisti, num concerto generoso, suado e interpretado com as vísceras (Brel) e entranhas (Weil).

Entrou pela porta grandiosa de Kurt Weill, absolutamente eclética: corrosiva, n'A Balada de Mackie, jocosa n'A Saga de Jenny e poética em Youkali. Revisitou a suma cabarética Lola, com uma batida frenética, para mergulhar, de seguida, num Brel superlativo, sombrio e dilacerado, mas não cru! Aqui, apenas o accent merecia maior cuidado, com U's mais delicados! Sinon, c'était géniale!

Apoteótica, ressuscitou Piaf, via Monnot e Glanzberg, em Milord e Padem, terminando, em êxtase, num território em que foi rainha, na Broadway como em Londres, o musical (Chicago e All That Jazz).

Senhora de uma versatilidade assombrosa, Lemper, a cada instante, revelou o seu génio infindável, presente em interpretaçōes de uma riqueza ímpar. E o que dizer da voz... Felina, destemida e borrifada com bagaço, arriscando sem receios...

Os anjos, no céu, ter-se-ão convertido ao Lemperismo, e gozzzzzzzzzado, diabolicamente!

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(6/5)