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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
I Traviati - III, a derradeira apreciação

(Patrizia Ciofi)
Depois do que aqui foi dito, a respeito desta La Traviata, pouco haverá a acrescentar.
A glória da interpretação assenta, repito, na superlativa encenação de Carsen – que sublinha a conflitualidade Giorgio vs Alfredo (pela posse de Violetta), enfatizando a dimensão materialista, efémera e crua de uma trama, o mor das vezes, excessivamente romanceada –, bem como na prestação de Hvorostovsky.
Saccà cumpre, como Alfredo. A sua performance reitera a impossibilidade de ombrear com o rival: a figura é mais fraca, o timbre algo caricatural e a prestação cénica, pouco acima da mediania. Este Alfredo é um pobre neurótico – psicanaliticamente falando -, castrado e incapaz de afrontar a soberania paterna.
Quanto a Ciofi...
Patrizia Ciofi é uma actriz extraordinária, com provas dadas (o que dizer da sua Marie?!). No drama de Violetta, Ciofi leva a melhor, sublinhando a conflitualidade da sua personagem, ora mais puta (perversa), ora mais ambivalente (neurótica: ossia, balanceando entre o amor por Alfredo ou por Giorgio...). Vocalmente, há evidentes problemas de afinação, particularmente no acto I, cuja coloratura é assassina e implacável. Mais à vontade, nos derradeiros actos, a voz alia-se ao teatro, o seu forte.
Mazzel dirige uma orquestra mediana, morna e arrastada em excesso, com deslizes discretos.
Esta La Traviata reveste-se de algum interesse musical adicional, na medida em corresponde à versão original, estreada, justamente, no La Fenice, a 6 de Março de 1853. Os números desconhecidos do grande público não são assim tão negligenciáveis...
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(3,5/5)
domingo, 25 de julho de 2010
I Traviati - II, ossia Il Traviato

(Dmitri Hvorostovsky)
À semelhança de Tosca e Otello – para não me debruçar (ainda) sobre Eugene Onegin –, La Traviata é, também, susceptível de uma leitura psicanalítica, capaz de aclarar alguns pontos, merecedores de uma compreensão alternativa.
Dir-me-ão os mais cépticos – porventura, avessos a interpretações que dissolvam o peso do reprimido, psicanaliticamente falando – não ser legítimo ler o que o libretista / compositor não criou.
Ora, desde Freud, sabemos existir, em toda a produção humana, um conflito, conflito esse instalado na expressão autêntica: entre o que se diz e o que se pretende / deseja dizer / fazer, reina uma distancia imensa.
No tocante à ópera, claro está que, manifestamente, Floria ama Mario, Iago pretende destruir Otello e Violetta deseja Alfredo. Porém, como temos vindo a constatar – não sem um coro de resistentes (que está no seu pleno direito!) -, sob as aparências, escondem-se outras intenções e movimentações inconscientes.
Vem esta prosa a propósito da La Traviata que reabriu o La Fenice, em 2004, com Ciofi, Saccà e Hvorostovsky, nos papeis titulares. A encenação de Robert Carsen constitui, para mim, um dos maiores pontos de interesse desta produção.
Carsen revela uma profunda intuição psicanalítica, explicitando o conflito triangular que une Violetta, Alfredo e Giorgio.
O (grande) encenador opta por uma desconstrução da habitual imagem romântica de Violetta. A Senhora Valéry é uma puta de luxo, a que os senhores de oitocentos apelidaram cortesã (Dumas Filho, incluso). Carsen constrói a sua concepção de La Traviata numa linha que privilegia luxúria e materialismo. Há plumas, lantejoulas, ambientes a meia luz, dinheiro e lingerie provocadora a rodos, para gostos mais atrevidos! Coralistas boazudas e bailarinos abichanados, coiros e bolas de espelhos completam o ambiente dissoluto.
Aos olhos de Carsen, Violetta é – acima de tudo – uma meretriz de luxo, cuja conduta se rege pelo vil metal. Pontualmente, a rapariga cede ao coração, ma non troppo...
A Violetta de Robert Carsen será, pois, uma criatura da linha perversa, pouco dada a culpabilidades e arrependimentos românticos (e neuróticos).
A meu ver, a maior ousadia do metteur-en-scène decorre, justamente, do vínculo libidinoso que une Giorgio e a protagonista. Por artes do inconsciente, esta produção escolhe um Giorgio de óptima figura, timbre divino e articulação esplêndida. Dmitri Hvorostovsky, no auge da sua soberania lírica, compõe um Senhor Germont impressionante. Sob uma aparente rigidez, Giorgio abeira-se de Violetta, paulatinamente, insinuando-se, com um atrevimento diplomático...
Nos antípodas de Hvorostovsky, deparamos com um Saccà atontalhado, de timbre algo circense e caricatural.
Pergunto, à fiel leitora - e, por que não, ao fiel leitor -, que Violetta preteriria Giorgio, em favor de Alfredo, neste quadro?!
Ora, Carsen sublinha a trama triangular – um claro desdobramento do conflito edipianino -, em que o pai rivaliza com o filho, procurando conquistar o vértice feminino / materno do complexo triângulo.
A fraca figura e desempenho deste Alfredo são tributárias da ansiedade de castração: evidenciam uma criatura algo trôpega, incapaz de assumir uma disputa com o progenitor. No limite, o pobre Alfredo sai perdedor da luta! É por força da decisão paterna – a anuência do pai – que o pobre menino Germont se (re)abeira da, então, moribunda Valéry.
Posto isto, estou em crer que o móbil do gesto de Giorgio – suplicando que Violetta se afaste do desafortunado filho, pelas nobres razões, que todos conhecemos – decorre do seu desejo pela dita dama. O rival Alfredo é, por esta via sinuosa, liminarmente afastado...
domingo, 30 de maio de 2010
From NYC with love...


quarta-feira, 9 de março de 2005
Hvorostovsky: Verdi Arias
terça-feira, 8 de março de 2005
...Hvorostovsky... Rendam-se !
A primeira vez que o vi / ouvi - leia-se, via dvd... - foi na histórica aparição que fez em Cardiff, corria o ano de 1989. Sem grande surpresa, ganhou o (agora famoso) Singer of the World, na categoria de Ópera.
A concorrência era verdadeiramente assombrosa ! Recordo que, na categoria de lied, o galardão foi arrebatado pelo colossal Terfel.
Devo confessar a minha absoluta parcialidade, quando de Terfel se trata... A versatilidade do Galês é prodigiosa ! Canta Mozart em Viena, encanta o Met com Strauss (Jochanaan, da Salomé) e Wagner (Wolfram, do Tannhäuser), deslumbra Londres com Verdi (Falstaff, sobretudo !) e Gounod (Mefistófoles, do Fausto), etc...
Dele tenciono falar, mais em detalhe, numa outra ocasião pois, como poucos, na actualidade, merece um exclusivo !!!
Confesso que a vitória do siberiano, na altura, me irritou... O estilo-vedeta contrastava com a humildade de Terfel. A arrogância exibida, o ar triunfal... Antevia-se (mais) um duplo de Narciso...
Em minha opinião, algumas personalidades narcísicas - em doses homeopáticas, advirto - têm o condão de nos fascinar pelos seus feitos ousados, pelas suas qualidades exacerbadas, pelas suas inigualáveis proezas...
A audácia com que se desenham, o (aparente) fascínio que por si nutrem, muitas vezes, têm (alguma) razão de ser ! Quem ousa discutir o talento de Callas, vítima ímpar da ferida narcísica ? Alguem duvida da mestria de Christoff ? Et pourtant, quão mal-amados se sentiam...
Hvorostovsky, grosso modo, enquadra-se nesta categoria de personalidades. A vaidade que nutre pela sua figura é quase caricatural !
Invariavelmente, os seus discos exibem variantes de Adónis ! Pelo que consta, até há relativamente pouco tempo, consagrava parte substancial do seu tempo... não na preparação dos papeis que interpreta, mas no ginásio ! Voz sã em corpo atlético ? Uma peculiar interpretação da máxima grega, diríamos !
A verdade é que o barítono siberiano é senhor de uma bela figura.
Quando imagino figuras como Onégin, Rodrigo (do Don Carlos) e o Conde de Luna - personagens do repertório de Hvorostovsky -, vislumbro criaturas atléticas, viris e esbeltas !
Nos últimos anos, pelo que se nos é dado ver, Dmitri tem descurado a forma física... Os quarenta começam a sentir-se na pele... Espantosamente, este desinvestimento na figura tem coincidido com um aprofundamento artístico, particularmente observável no domínio dramático. As encarnações de Hvorostovsky são, agora, mais densas e profundas ! Longe vão os tempos em que tudo interpretava com um ar altaneiro. Está mais maduro, sensível... O talento brota naturalmente, sem limites !
Na presente temporada, no Met, compôs um Giorgio Germont notável ! A maturidade vocal e dramática que o papel exige não levantaram qualquer obstáculo ao cantor. O seu Germont, em todos os sentido, gozou de uma infinita plenitude... Convincente, comovedor, triunfou !
As encarnações mozartianas de há bem poucas temporadas começam a rarear. Algumas delas - diga-se em abono da verdade - desencadearam pateadas monumentais, como a do Don Giovanni, em Salzburgo, aquando da aria do champagne, em 2000, se a memória não me falha.
Hvorostovky é, hoje, um barítono lírico, concentrando as suas interpretações mais assinaláveis em torno de dois compositores: Verdi e Tchaikovsky. Parece ter regressado às origens, pois foram estes, justamente, os dois compositores que abordou no citado concurso de Cardiff ! Abandonou a versatilidade, em favor de um repertório mais criterioso, mais conforme às suas possibilidades.
A razão de ser deste post tem uma explicação bem prosaica: adquiri um cd de Hvorostovsky, integralmente dedicado a Verdi - DELOS DE 3292.
Quando ouvi a primeira aria, o milagre sucedeu ! O terror do Credo (do Otello), a dor do Cortigiani (do Rigoletto), a elegância do Il balen del suo sorriso (do Il Trovatore), a par de outras interpretações, são uma lição de interpretação verdiana !
Não creio que, no presente, haja barítono habilitado a disputar a Hvorostovsky o território verdiano. Como Gobbi, Sereni, Milnes, seguramente, vai fazer escola !
Há muitos anos que não escutava Verdi, nesta categoria vocal, com tamanha mestria !


