Lady Macbeth of Mtsensk é uma notável ópera de Chostakovitch, tendo sido estreada – e rapidamente banida – em 1934, em Moscovo. Em 1962, o autor revê a peça - Katerina Izmailova, doravante -, introduzindo-lhe algumas modificações.
(Westbroek, como Katerina, na cena do casamento)
No essencial, a trama assenta numa fina e meticulosa caracterização da natureza humana, no que de mais sórdido e abjecto a mesma contém. O poder e exaltação do princípio do prazer - que se consubstanciam na luxúria - encontra-se em permanência à tona, ao longo desta peça: em nome do puro prazer e desejo de domínio, engana-se, mata-se e corrompe-se.
(Sergei - Ventris -, subjugando Zinovy - Ludha)
O argumento centra-se num território onde se cruzam perversão e psicopatia: a dissolução moral e corrosão psíquica atingem limites inusitados, como em nenhuma outra peça lírica! Em lugar da evocação simbólica, Chostakovitch investe na crueza, frieza e dilaceração.
A música é sombria, sinistra e desconcertante, criando, em permanência, um clima de extrema tensão, desconstrução e ruptura. O sórdido e abjecto estão omnipresentes.
(Ventris e Westbroek, ossia Sergei e Katerina)
A encenação (Martin Kusej) é um prodígio, fazendo do grotesco e sórdido a sua espinha dorsal. Em lugar de uma estética sexy, pueril e equilibrada, apoiada numa beleza tão característica da contemporaneidade – figuras esbeltas, magras, corpos harmoniosos e trabalhados -, a encenação rodeia-se de homens e mulheres tremendamente feios, obesos, bem redondos, de fácies assustadoramente animalescos. As cores estão dominadas pelo escuro e sombreado – cinzas dégradés, escarlates esbatidos, branco conspurcados.
(Eva Maria Westbroek, como Katerina)
De entre os solistas, Eva Maria Westbroek e Christopher Ventris sobressaem. Ela compõe a Katerina assoluta, destronando a extraordinária Galina Vishnevskaya. Westbroek é ardilosa, decadente, luxuriante e selvática. Ventris compõe um Sergei maligno, calculista e absolutamente abjecto. Perto da sua personagem, o temerário Iago é um aprendiz... Por fim, Mariss Jansons dirige um Concertgebouw colossal e imenso, surpreendentemente poético...
Em nome da luxúria e do prazer sem regras... PURO DELEITE!
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(5/5)