
Há anos que procuro a Aïda da minha vida.
É certo que, no tocante a intérpretes da mesma ópera, encontro-me sobejamente satisfeito: L. Price e Caballé são a protagonista, Vickers, Bergonzi e Domingo incarnam o Radamés ideal e Cossoto (seguida, com assinalável distância, de Gorr e Simionato) materializa a Amnéris absoluta.
Continua a faltar-me a leitura definitiva, que alie vozes e interpretações de sonho a uma orquestra e coro divinamente dirigidos. É que a perfeição – caro e fiel leitor -, em ópera (de estúdio) pode muito bem existir (vide Don Giovanni, Tristan, Tosca, Parsifal e Le Nozze di Fígaro, apenas para citar as mais visíveis)!
A presente interpretação roça a perfeição, maioritariamente graças a Von Karajan & Filarmónica de Viena.
O maestro austríaco e a divina filarmónica desenham a melhor Aïda orquestral que alguma vez conheci: majestosa, dramática, de uma grandiosidade heróica, alternando com notável plasticidade os momentos de lirismo recatado – as árias da protagonista, nomeadamente, o dueto do último acto – com as cenas grandiosas – a marcha triunfal, por exemplo. A todo o instante, sente-se o controlo inabalável de Von Karajan, que dirige com mão de ferro, envolta em veludo.
Definitivamente, em matéria de direcção orquestral, a democracia é sinónimo de blasfémia!
Em relação aos solistas, Simionato é a que mais se evidencia, compondo uma Amnéris impressionante. Corroída pelo ciúme, move-se entre a sede de vingança e o desespero derradeiro, apoiando-se numa voz imponente. Bergonzi – que é um dos melhores Radamés de sempre – peca pela melancolia, que o invade, e Tebaldi, apesar da excelsa qualidade do spinto, banha a sua composição num oceano angelical, parco em libido. Aïda é uma fêmea, e quanto a isso não pode haver hesitações!
Bordejando a perfeição – por Von Karajan, acima de todos -, esta é uma das mais grandiosas Aïda.
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(4.5/5)