terça-feira, 26 de maio de 2009

O asco



Lars Von Trier é um realizador deplorável que, sob a capa de uma estética ousada e de uma racionalização permanentemente falhada – no sentido psicanalítico do termo –, impregna as suas criações de fantasmas sadomasoquistas.

Breaking the Waves, perto de Dogville, é de um amadorismo e inocência impressionantes.

Dogville – seguramente o mais abjecto e desprezível filme a que assisti – é uma criação perversa, trespassada por um fantasma primitivo, que apenas ilustra a dinâmica sadomasoquistas: o gozo secundário à humilhação e submissão, tão próprio da masoquismo, transforma-se numa destrutividade absoluta, vingativa e sádica.

Sou, por natureza e dever de ofício, pouco dado a reacções emotivas e fáceis manifestações de grande sensibilidade. Por norma, procuro no aparentemente insólito e chocante uma outra significação. Melhor dito: o meu ofício é a resignificação. Contudo, Dogville não é susceptível de uma significação outra: um puro exercício perverso, o mais miserável e pobre que o psiquismo humano pode conceber.

Abaixo de cão, portanto.


* * * * *
(0/5)

7 comentários:

J. Ildefonso. disse...

Carissimo

Concordo em absoluto! Sei que não é uma opinião popular mas estou disposto a assumir os riscos.

blogger disse...

pois eu entao gostei muito! da evolução das personagens e da interpretação da Nicole.

mr. LG disse...

Pois eu ainda não o consegui ver...
nem nutro assim muita simpatia por Lars Von Trier, a bem da verdade.
Não chegou a fazer o Ring em Bayreuth. Desistiu e deu lugar a Tankred Dorst, o actual encenador.
O que dali sairia?... Uma Brunnhilde de meias rotas?... B-0 ??... :-?
Se calhar, ainda bem que se ficou pelo cinema!...
Acabou de ser muito falado em Cannes. Charlotte Rampling, grande senhora actriz, acabou de levar a Palma de Ouro Melhor Actriz pelo ANTI-CRISTO deste mesmo Sr. Von Trier.
Será desta??... :-?
LG

Anónimo disse...

Dissoluto,
Que exagero !
Raul

Tiago disse...

Brother,

Não terá mérito um filme capaz de gerar no espectador um sentimento equivalente ao que ele próprio descreve? Os adjectivos que diriges ao filme "o mais abjecto e desprezível filme a que assisti" podiam ser usados por um qq habitante da aldeia em direcção a Nicole.

Há mais filmes neste registo, alguns verdadeiras referências - Funny Games, Breaking The Waves, Crash e Spider (ambos os de Cronenberg), A Festa; outros, filmes dispensáveis - Dancer in the Dark, A Pianista, Os Idiotas, A Grande Farra e o Saló (que não me atrevo a ver).

Para mim, Dogville não tem 5*, mas 3 1/2 . Lembro-me que na altura a história tb chocou muito, mas que a interpretação e a originalidade formal do filme me maravilharam.

Abraço
Tiago

Il Dissoluto Punito disse...

Brother,

Evidentemente, a tua opinião era a mais aguardada, dado o objecto do post. Quanto à forma, não podemos estar mais de acordo: é sublime. Mas o conteúdo é miserável, como só a perversão consegue ser - pura e pobremente repetitiva, sempre em torno de quem subjuga mais e é mais subjugado.

Apesar de tudo, no Cronenberg a coisa é mais diversificada, nem sempre constituindo uma digressão pelo sadomasoquismo - vide Spider.

Um grande abraço,
jon

Anónimo disse...

(Teclado de internet cafe no sul da China)
Igualmente achei interessante a forma, a maneira como as personagens se desenham numa l'ogica, que parecem um pouco tontinhas, mas para aquele cen'ario de outra forma n~ao poderia ser. Para mim a construcao do trama conduzindo ao inesperado, embora a milhas da Patricia Highsmith, 'e outro elemento do filme que acho interessante. Para **.
Raul