sábado, 30 de agosto de 2008

De La Traviata pós-Callas – III – Netrebko, eu e a psicanálise

Quando tomei conhecimento da La Traviata de Salzburgo, via cd – por ocasião da sua comercialização, em Novembro de 2005 –, emotivamente, de forma impulsiva, desanquei-o! Inclemente...

A carga emocional subjacente à destruição (ainda que moderada...) da interpretação de Anna Netrebko deu-me que pensar, dada a minha condição de psi. De facto, se o registo era tão desprezível, por que razão lhe consagrara eu uma tão extensa critica? Habitualmente, a mediocridade desvanece-se num ápice, não deixando marcas que perdurem!

Pois bem, claro é agora que a minha soi-disant postura critica mais não era que uma forma altamente defensiva (e eficaz!) de controlar, reprimindo, um desejo quase intolerável...

De facto, à época da publicação desta La Traviata, eu casara há apenas um mês...

A estratégia neurótica – a repressão do desejo intolerável (a ler como: o desejo por Netrebko, tout court) permitira-me manter o Super-Eu (guardião da moral) tranquilo.

A verdade verdadeira, caro leitor – e a verdade (subjectiva) é a obsessão suprema dos psicanalistas –, é que Anna Netrebko desencadeara uma conflitualidade tipicamente neurótica – luta equiparada entre desejo e defesa, erigida contra o mesmo - neste escriba.

De facto, não só a beleza da intérprete como a sua magnífica leitura emocional e prestação vocal me haviam perturbado – ou excitado, como se preferir - imensamente.

Evidentemente, na linha desta estratégia defensiva neurótica, persisti no olhar snob dirigido ao registo dvd da Violetta de Netrebko, até que o desejo triunfou sobre a defesa e, a pretexto de um preço convidativo do artigo, lá fiz o favor à Senhora e adquiri o artigo em discussão.

O resto é da ordem exclusiva do desejo, deslumbramento, encantamento e orgasmo... e será discutido de forma, tanto quanto possível, racional, em posts futuros.

21 comentários:

Leporello disse...

Ora até que enfim que você me dá razão. Na época em que esta Traviata saiu eu escrevi um comentário discordando um pouco da sua crítica. Até lhe cheguei a enviar umas fotos da Netrebko lol.

Pois bem, eu gosto muito desta Traviata e quanto mais a vejo (revi-a ontem) mais gosto dos imensos dotes dramáticos da moça (ate um fellatio simula em cena... jasus!).

Infelizmente o que não gosto mesmo nada é da dicção e do italiano da senhora. Para além disso, defeito de quase todas as russas, a voz de Netrebko é um pouco escura de mais para o meu gosto.

Seja como for, e pesando todos os prós e contras, não encontro melhor registo moderno desta ópera, sobretudo em DVD.

Il Dissoluto Punito disse...

Leporello,

(as fotos deram-me a volta à cabeça)!

Ricardo disse...

Relativamente a este DVD que já vi e revi até à exaustão, a minha opinião é simples.

Acho que tudo que se podia fazer com a Traviata foi feito aqui e a fasquia foi elevada da mesma forma que a Callas a elevou no tempo dela. Podem dizer que a rapariga é bonita mas que tem problemas técnicos e bla bla bla bla. Não passa disso mesmo, de bla bla bla. Este DVD constitui uma prova inegável do imenso talento da Netrebko.

Já agora, já viram a Manon de Berlim que foi lançada há pouco tempo? Tirando um 4º acto cantado um pouco na defensiva, a composição e evolução que ela consegue na personagem são inigualáveis. A nuance de cor entre o Je suis encore tout étourdie e o Adieu notre petite table (especialmente o recitativo antes) é simplesmente de génio. A cena de St Suplice é simplesmente arrebatadora!

Ricardo disse...

Só um acrescento relativamente à Manon. O que eu gosto nesta nova versão é que a Netrebko junta o que de melhor há na concorrência, que a capacidade cénica e teatral da Dessay (que padece, como de costume, de falta de cor vocal) e a dimensão vocal (dimensão sonora, não interpretativa, atenção) da Fleming, que, para não variar, peca por excesso de maneirismos.

Hugo Santos disse...

Totalmente de acordo, caro Ricardo.

Anónimo disse...

Cara Helena respondi ao seu comentário sobre o D. Giovanni, relativamente à Netrebko sinceramente é uma cantora que não conhecia, a imagem que a DG lhe fez têm-me mantido afastado, mas como não quero morrerestupido comprei em saldos, 9,90Euros, o seu c.d. de arias russas e estou muito satisfeito. O Eugene Oneguin não explora a melhor parte da sua voz mas brilha na outas arias especialmente na Guerra e Paz. Quanto ao reportório ocidental não sei. Normalmente não gosto muito de Russas em papeis Italianos porque a dicçao é nebulosa e os agudos com muito vibrato mas pode ser que a Netrebko seja a excepção.

J. Ildefonso.

Ricardo disse...

Caro João, não me parece que o vibrato da Netrebko nos agudos seja problemático.

É um vibrato saudável, nem demasiado rápido e estreito tipo caprino, vá (ao estilo da Rita Streich e algumas gravações menos boas da Sutherland) nem é demasiado amplo como a Callas no final da carreira. É normal.

Aconselho o dueto da Iolanta do Tchaikovsky cantado com Villazón no CD de duetos q lançaram há pouco. A voz do Villazon está muito frágil e suja em todo o registo (foi feito pouco tempo antes do esgotamento), mas a Netrebko está sublime, e neste duo da Iolanta e também no dos pescadores de pérolas, ela brilha especialmente.

Hugo Santos disse...

Eu até acho que o Villazon não se sai mal de todo nos duetos. O timbre encontra-se algo desbotado, mesmo baço e a emissão não é tão limpa e segura como outrora. No entanto, e tendo em conta o uso que o sr. Villazon tem dado à sua voz, o resultado é positivo.

Anónimo disse...

Não sei Ricardo, conforme disse não conheço a Netrebko em reportorio Italiano. No c.d. de arias Russas está deslumbrante nas arias da "Menina das Neves" que me parece um papel muito bonito feito às suas medidas.

J. Ildefonso.

Anónimo disse...

Não estou nada de acordo que se utilize o adjectivo "sujo" para classificar uma voz. Nada mesmo. Poderei compreender que se diga que a voz "não é limpa", ou que "esta voz é mais limpa do que aquela". Não podemos traduzir "unclean" para "suja" quando nos referimos a uma voz.
Raul

Leporello disse...

Está enganado, caro Raul.

Qualquer pessoa que tenha estudado canto sabe perfeitamente que se utiliza o adjectivo sujo. Por exemplo, quando há secreções ou quaisquer outros detritos vindos da garganta, pulmões etc que efectivamente sujam a voz.

Acontece muitas vezes e nem é preciso que a pessoa esteja constipada.

Por outro lado, também se usa este adjectivo para quando a voz não está, digamos assim, cristalina. Por estes problemas que mencionei antes, por stress, por envelhecimento das cordas vocais etc., etc.

Anónimo disse...

Peço desculpa, mas continuo a não estar de acordo, pois uma coisa é uma terminologia didáctica e outra e a utilização de uma terminologia de propósitos críticos a artistas consumados. O adjectivo "sujo" é para mim metaforicamente inaceitável ao falar de um cantor profissional. Aceito, como falante do português, "atitude suja", "política suja", "armadilha suja",... mas não "voz suja" nas circunstâncias que referi.
Raul

Ricardo disse...

Caro Raul, o Leporello disse tudo!

Talvez não esteja familiarizado com a gíria do meio, mas é recorrente. É um adjectivo que uso comigo mesmo quando não estou a 100% e não é só com o objectivo de denegrir artistas consumados, como afirma. não tenho nada que denegrir o Villazon porque gosto muito dele, embora ache que algumas decisões menos sensatas levaram a um certo declínio vocal relativamente cedo.

A verdade é que nos registos em causa (CD de duetos) a voz não está nas condições em que se encontra na Traviata de Salzburgo nem nos seus primeiros CD's, e não vamos ignorar o facto de este álbum de duetos ser uma gravação estúdio, e se nem os milagres da engenharia de som moderna conseguiram disfarçar a, volto a insistir no termo, sujeira vocal, é porque ele estava longe do seu melhor.

O Raul pode não aceitar, mas se for falar com qualquer cantor, profissional ou amador, verá como é um termo recorrente.

Cumprimentos

Ricardo disse...

Além de que, caindo em redundâncias à la Lili Caneças, estar sujo é o contrário de estar limpo, portanto se aceita que se diga que "a voz não esta limpa" está a afirmar que ela está suja.

A ideia é a mesma, só usa outros termos para a exprimir.

Raul disse...

Caro Ricardo,
Mas eu não estou a pôr em causa a linguagem que como diz muito bem é da "gíria". Se o termo é utilizado entre os estudantes, quem sou eu, que nunca estudei canto, para o contrariar. O que eu não concordo é com um léxico crítico que contenha o adjectivo "sujo". Jamais li uma crítica referindo-se à voz do cantor como "dirty" , "sale" ou "sporca".
Outra coisa: eu nunca me referi aos album de duetos do Villazon que refere, porque nunca os ouvi.
Agora para terminar -- e peço-lhe que não leve a mal -- deixe-me fazer um pouco de humor com este diálogo imaginário:
" -- Que tens ? Estás agoniado ?
-- Tu nem imaginas ! Acabei de vir de um recital e a voz do cantor estava sujíssima. "

Um abraço

Il Dissoluto Punito disse...

Raul,

Ah, ah, ah! Adorei a última tirada :)))

Anónimo disse...

Não sei até que ponto o adjectivo limpo será adequado para descrever uma voz. Pessoalmente pareçe-me que falar de vozes limpidas faz mais sentido. Conheço o adjectivo sujo aplicado a situações vocais mas relativamente ao ataque das notas. Nas criticas italianas é frequente escrever-se sobre "ataqui sporchi". Mais não sei dizer se ajudar a esclarecer e resolver o conflito fico satisfeito.

J. Ildefonso.

raul disse...

Conflito!!!

Anónimo disse...

Sim! Agora lembro-me!
Um antigo director, já não é do vosso tempo isto há mais de
30 anos, dizia a propósito das boas cantoras "é carne de vaca limpa!". Por isso seguramente existe o equivalente na negativa em linguagem musical técnica, ou seja, "carne de vaca suja"!

J. Ildefonso.

Raul disse...

João Ildefonso,
Carne de vaca limpa é terminologia para o canto !!!
E daí, extrapolando, vem carne de vaca suja !!!
Are you OK ?

Anónimo disse...

Sim! Pareçe que sim! Se foi utilizado por um respeitável director do nosso Teatro lírico na époco de maior prestigio e sucesso unanimente reconheçido é capaz de ser!
Não afirmo que estou ok. Nada o indica e agradeço os sinais de preocupação pela minha sanidade mental. São legitimos, tudo o leva a crer, e bem vindos.

J. Ildefonso.