segunda-feira, 26 de maio de 2008

Tosca, Teatro Nacional de São Carlos, récita de 23 de Maio de 2008

Pour une fois, o melhor da noite não foi o magnífico entrcôte servido na Brasserie de l’entrcôte, ao Chiado! A Tosca do TNSC triunfou, salvando a honra do convento, ossia inverteu-se a lógica da pouca-vergonha subjacente à actual temporada do TNSC.

A presente temporada lírica foi, numa palavra, catastrófica, tocando as raias do escândalo, não raras vezes: um Rigoletto vergonhoso, uma La Clemenza di Tito medíocre, um Les Contes d’Hoffmann inenarrável.

Enfim, parti para a récita como quem vai para o cadafalso, qual Cavaradossi desenganado. Felizmente, enganei-me! Gozei, gozei e degustei um magnífico entrecôte, bien saignant, comme d’habitude!

Não sou, nem nunca fui, grande apreciador de Puccini, devo advertir. À parte La Bohème, Turandot, de quando em vez, e Tosca, a demais produção lírica de G. Puccini é-me quase indiferente. Os leitores assíduos deste blog estão bem ao corrente das minhas preferências operáticas.

Tosca é uma peça lírica tipicamente verista. No que à ópera diz respeito, o Verismo consistiu num movimento italiano do final do século XIX, protagonizado por Puccini, Leoncavallo e Mascagni, entre os mais proeminentes, que elevou o povo à condição de héroi. Nos antípodas do Romantismo – cuja produção lírica e literária se limitava ao modus vivendi da aristocracia -, o Verismo, fortemente impregnado pelo espírito realista e naturalista, retrata a vida mundana, a miséria, a opressão, rejeitando categoricamente o protagonismo aristocrata. O seu herói é a plebe, as tísicas, as putas, os dissolutos, os pobres, a decadência e a luxúria.

Ora, no âmbito do Verismo, Tosca surge como uma criação paradigmática, como referi. Não sendo uma mulher mundana, a protagonista da trama é uma mulher relativamente simples, que vive do seu talento. Ama uma homem que preza a liberdade, vivendo também ele do seu talento. Como terceiro vértice da relação, surge-nos o Barão Scarpia, figura de uma incomensurável perversão.

O signo verista paira sobre toda a obra, no sentido em que são sublinhados aspectos mais primitivos da natureza humana: a luxúria e perversa lascívia de Scarpia, ocultada por uma pseudo-devoção religiosa, lado-a-lado com o tórrido ciúme e manifesta impulsividade de Tosca. A crueza humana, em Tosca, é explorada sem pudor algum! Tosca ama Mario, mas só a muito custo oculta o desejo por Scarpia.

Em Puccini – honra lhe seja feita – não há espaço, apenas, para a nobreza de carácter. A natureza humana é essencialmente complexa, plena de conflitualidades, animada pelo amor e – nunca é demais sublinhar – pelo ódio. Puccini ousou dar expressão à brutalidade humana, evidenciando o que até então era reprimido.
Paz à sua Alma!

Regressemos à récita, móbil primeiro deste post.

Apreciei muitíssimo a encenação de Robert Carsen, que fundiu ornamentação – o mobiliário - com espaços desnudos e amplos, linhas direitas e sóbrias (as de parte dos figurinos e cenários), criando uma atmosfera atemporal. A acção da trama tem lugar, como se sabe, durante os inícios do século XIX. Carsen perverte esta verdade, tornando-a numa mera possibilidade, entre tantas outras.

Em meu entender, Carsen propõe uma encenação ampla e altamente requintada.

Em termos de direcção orquestral, surpresa foi a palavra de ordem! Koenigs propôs-nos uma leitura rigorosa, grandiosa e precisa da partitura, coisa rara desde há tempos! Pena é que o excesso o leve a uma verdadeira obsessão pelo fortissimo, que abafou quase em permanência os solistas! Por certo, Lothar Koenigs desconhece os limites do aparelho vocal humano! Recomenda-se, portanto, que se dedique mais ao repertório sinfónico.

Apreciei a prestação do coro, particularmente coeso e eficaz no Te Deum.

A performance dos solistas, ainda que desigual, revelou grandes virtudes.


(Elisabete Matos)

Elisabete Matos é, indubitavelmente, uma grande intérprete, de voz ampla e pujante. Brilha nos agudos e triunfa nos graves. A sua Tosca – vocalmente notável – enfermou de uma certa fragilidade teatral. Falta-lhe calor e libido! Há algo de freirático – quando não trôpego - na movimentação. Tosca é uma mulher desejável, de sangue quente, fervilhante, ávida de amor; Matos, nem tanto...

Há alguns anos, numa entrevista, li que Elisabete Matos cultivava o celibato. Faz mal! A voz e a interpretação ressentem-se...

Evan Bowers, o Mario Cavaradossi da récita, revelou-se um cantor razoável e um actor medíocre. Aguentou-se bem no Recondita Armonia, vassilando no E Lucevan le Stelle. Peca por uma mímica muito pobre e desajeitada.

Quanto ao Scarpia de Vladimir Vaneev, tirando a circunstância de amiúde não se ouvir, literalmente (o volume da orquestra em nada ajudou, é certo), compôs um personagem com substância, plenamente perverso, transpirando lascívia e malignidade. Não sei se a figura do intérprete suscita desejo junto do público feminino, mas isso é outra questão, que não cabe aqui discutir!



Numa palavra, maugrado as inúmeras fragilidades, globalmente, esta Tosca brilhou, marcando – espera-se! – um volte-face em termos de qualidade da programação do São Carlos que, até à data, se pautou pela deficiência.

7 comentários:

Anónimo disse...

Caro amigo,
Gostei de ler a sua crítica e não foi esta a primeira vez que a orquestra abafa os solistas e especialmente na Tosca, onde, se tivermos um barítono que não seja "forte", não se ouve no Te Deum e na Cena da tortura.
Há algo, no entanto, que diz ao introduzir a sua crítica que "a priori" não estou de acordo. É quando afirma "Tosca ama Mario, mas só a muito custo oculta o desejo por Scarpia.". Desejo por Scarpia. Onde está isso no texto?
Poder-me-á explicar, quando tiver paciência. Eu sei que sou casmurro, mas estou aberto a novas leituras, desde que partam do texto.
Um abraço
Raul

Gi disse...

O Raul deixou a mesma pergunta que eu vinha fazer: onde encontra esse desejo de Tosca por Scarpia? Eu só encontro repulsa. Talvez seja possível ir por aí, mas tem que ser uma produção muito especial, que eu nunca vi.

Outra coisa: a descrição que o João faz desta récita não parece muito de acordo com a conclusão que tira, isto é, não vejo grandes razões para ter gostado - a não ser possivelmente a encenação de Carsen.

Não me leve a mal, está bem? Estou a comentar de coração aberto.

Espero ir à récita de sexta-feira, com o elenco alternativo. Espero não me arrepender (muito); depois conto.

daniel disse...

confesso que tambem eu fiquei curioso com essa relaçao de atracçao/repulsa entre tosca e Scarpia. aguardo a sua explicaçao! e tambem eu vou ver o elenco alternativo...seja lá o que isso for.

Anónimo disse...

A Tosca é uma mulher muito contraditória cheia de dictomias.
Beata e amante; apaixonada e ciumenta; sexual e púdica; diva e popular; corajosa e medrosa; frágil mas energica, e por aí além.
Maravilhosa a arte do compositor que conseguiu dar vida a um personagem com tanta credibilidade. Também o Scarpia é muito interessante como personagem cruel, beato, dominador, tirano, sedutor. Obviamente que o Mário é um personagem muito mais unidimensional esgota-se na suas dimensões de amante e liberal.
Ora, o "excesso" de feminilidade da Tosca não encontra encontra equivalente no Mário, aliás a relação reveste-se de contornos maternais apesar da componente sexual, e só encontra uma força oposta (masculinidade primária) igualmente potente na figura do Scarpia. Por isso a sua atração é inevitável se bem que seja sexual num âmbito mais abrangente, pelos da parte da protagonista.

J. Ildefonso.

Anónimo disse...

Não, meu caro amigo, está a reduzir a personagem Tosca a uma mulher que pode encontrar na rua,em casa de amigos, no trabalho, enfim, por todo o lado. Mas aqui ela não a mulher livre Tosca, mas a personagem Tosca, escrava das palavras que profere e nenhuma delas conduzem a esses pensamentos "lúbricos". Afinal, e é muito simples, até podia satisfazê-los e corta o mal pela raiz, tal é o nojo que sente. As mulheres não são iguais aos homens e até gostaria da opinião de uma mulher, por exemplo a TERESA sobre esta ínfima questão.
RAUL

bernard n. shull disse...

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Il Dissoluto Punito disse...

Raul, João, Gi e Daniel,

A resposta à vossa questão sobre os desejos ocultos de Tosca já está dada!