domingo, 13 de fevereiro de 2011

Black Swan



O Cisne Negro contém dois pontos importantes: uma interessantíssima interpretação (Natalie Portman) e uma fina caracterização da psicose, de instalação insidiosa, tanto na linha descritiva – alucinação (particularmente as psico-sensoriais, retratadas com génio!) , delírio e dissociação -, com na compreensiva – clivagem (do self e objecto), projecção e mau objecto persecutório.

O estilo relacional materno, altamente persecutório, marcado pela extrema intrusividade / ausência de barreiras e limites dentro / fora, contribui eficazmente para uma tese explicativa da perturbação da bailarina. A fusionalidade – matriz da relação de objecto mãe / filha -, patologicamente fixada e instituída, está prodigiosamente retratada.

Em síntese, diria tratar-se de uma soberba ilustração da fractura psicótica.

O resto, pouco acima está da banalidade. Apesar do clima de tensão que se instala, que prova a consistência d'a coisa, a trama está cravada de previsões e alguns clichés.

Como a pastilha elástica: degustar e deitar fora, sem hesitações.

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* * * * *

(3/5)

8 comentários:

Anónimo disse...

nao tenho qualquer formação em psicologia e vejo-me grego para compreender quase tudo o que escreve a esse respeito. eu pensei no filme como uma espécie de alegoria à perfeição aliada àquilo que escreveu e percebi. para que serviriam todos esses aspectos pouco acessíveis? Não e de deitar fora, mas de rever e tentar compreender antes de mais dizer.

Fernando Vasconcelos disse...

Pelo que percebi é um dos outsiders aos oscares. Vale o que vale que esses também já premiaram bastas vezes filmes de plástico !

Elsa Mendes disse...

Concordo inteiramente! Um dos pontos fortes do filme passa pela revelação duma psicose potenciada pelas pressões fatais do encenador e da mãe. A recriação da relação com a mãe é certeira e dolorosa, em vários momentos do filme.
A personagem principal é literalmente devorada por um buraco negro ( dizia uma crítica) e achei esta imagem muito objectiva porque o filme, apesar de estar cheio de clichés insuportáveis e de padrões já muito vistos, atira-nos à cara o lado mau do culto da perfeição numa espiral destrutiva e avassaladora até ao fim. Não é muito frequente no cinema mainstream americano. Saudações cinéfilas!

J. Ildefonso. disse...

Grande interpretação para além da Natalie Portman da Barbara Hersey!

Mr. LG, el MIster disse...

Barbara Hershey, corrigindo-te Caro J Ildefonso. ;-)
Uma grande Actriz que merecia bem melhor reconhecimento lá na terra dos sonhos azuis, chamada de Hollywood.
Normalmente há tanta porcaria nomeada para Oscars… porque não nomear Barbara Hershey para Melhor Actriz Secundária num filme como este em que, mais uma vez, se integra bem no papel que lhe é dado: o de mãe obcecada pela carreira da filha, onde se revê e se projecta obcecadamente num sucesso, numa imagem, num triunfo que nunca teve.
…eu que andava por aí nos Eighties, já noto o passar dos tempos com o rosto já “demasiado” maduro de Barbara Hershey… :_(
Best regards
LG

J. Ildefonso. disse...

Exactamente, a Barbara Hershey, obrigado pela correcção. A primeira vez que a vi foi como Maria Madelena ainda nos anos 80 e impressionou-me muito. Depois perdi-lhe o rastro e só a reencontrei no "Retrato de uma Senhora" ainda bastante sedutora a contracenar com a Nicole Kindman.

Mr. LG, el MIster disse...

Mais outra, J Ildefonso:
Nicole Kidman, não Nicole Kindman, como escreveu. ;-D
Quanto ao resto: You Bet, J Ildefonso.
Já é de 1996, o “Retrato de Uma Senhora”, mas, para mim e até agora, é o melhor de Barbara Hershey. Interpreta aí magistralmente a personagm de Madame Serena Merle. Posso lhe dizer que também acho o melhor da realizadora Jane Campion, até agora.

Quanto à sua já referenciada em Post anterior AS ÁRIAS DE LUÍSA TODI // OS MÚSICOS DO TEJO
direcção musical de Marcos MAGALHÃES, Joana SEARA Soprano, tenho-lhe a dizer que como Mário Moreau, no texto introdutório que acompanha o CD, considero este um registo muito importante para o nosso património musical/cultural. A execução e a prestação da Soprano são excelentes, a um nível verdadeiramente digno do resto da Europa, embora noto limites na zona mais forte e aguda de Joana Seara.
Mas…
A minha verdadeira surpresa (e GRANDE!) ultimamente, e VIVAMENTE (!) a recomendo a todos é sem dúvida nenhuma:

Ne me refuse pas
Airs d’opéras français
Marie-Nicole Lemieux, contralto
Orchestre National de France
Direcção musical de Fabien Gabel
1 CD da etiqueta Naïve

Timbre redondo, escuro,vindo das entranhas da Terra…próprio da “gravidade” de uma Contralto; eis a revelação das revelações. Voz que demonstra possuir um certo volume que satisfaça em pleno a audição num (grande) teatro de Ópera. Parece Maureen Forrester renascida… E AINDA BEM!
Que bom é sempre constatar que GRANDES vozes na Lírica ainda não pereceram. CD Exemplaríssimo, excelente repertório escolhido, excelentíssimo acompanhamento de Fabien Gabel, de quem gostaria de saber e ouvir mais.
A true experience of life, believe me!
…Quais 5 em 5…
10 em 10 é o que é!! ;-D
LG

Raquel V. disse...

Tenho que concordar que para mim o que valeu no filme foi exactamente o trabalho da actriz e não fui tão longe (não sou dessa área)na dissecação da questão mental mas também foi o outro ponto a favor do referido. Interessante, o post.