segunda-feira, 7 de novembro de 2005

OTELLO, TNSC - impressões

Otello, de G. Verdi. - Teatro Nacional de São Carlos, récita de 6 de Novembro de 2005.

Parti para este Otello com expectativas mil, parcialmente baseadas na opinião de colegas e amigos da blogosfera.

Um dos pontos mais consensuais, relativamente ao Otello actualmente em cena, no TNSC, diz respeito, justamente, à mediocridade da encenação.

Em meu entender, uma encenação é uma tarefa de enorme complexidade artística, que transcende os aspectos puramente musicais e dramáticos de uma peça. Trata-se de revitalizar, interpretando - no mais pleno dos sentidos -, uma obra.

Importa, parece-me, que uma encenação tenha subjacente uma lógico, susceptível de ser apreendida pelo espectador.

Ora, a encenação deste Otello, na minha óptica, assentou numa lógica óbvia de confronto de opostos, de pares antitéticos, identificando, cada um deles, com uma tonalidade.

Em duas palavras, ao longo da progressão dramática, deparamos com uma oposição claro vs escuro - visível nas cores do guarda-roupa, bem como na tonalidade dos cenários -, sendo que, o mor das vezes, o claro reenvia ao puro e virtuoso - azul aberto do traje de Desdémona, azul celeste do cenário do final do acto I (Dueto Già nella notte densa) -, enquanto o escuro remete para a malignidade, urdidura e obscurantismo - Iago, invariavelmente, exibe um traje cinza; nas cenas em que a intriga, a malícia e a urdidura se explanam, o cenário de fundo exibe um cinza dégradé, pontuado por tons de ferrugem, numa explícita alusão à deterioração moral e perversidade.

Conceptualmente, este estilo de encenação parece ter feito escola, estando em desuso, há muito!

Algo caduca, está opção, diria eu... tanto mais que a estética que lhe deu suporte, maioritariamente, era de duvidoso gosto: mobiliário feio, cenários pobres - particularmente na cena final, do acto IV - (à excepção do cinza-ferrugem, que muito apreciei, pelo simbolismo que continha), luzes demasiadamente estáticas...

Ainda assim, esta encenação, de forma consistente e fundamentada, tem o mérito de propor uma leitura que coloca a tónica no confronto entre bem e mal, limpo e peçonhento, virtuoso e pervertido.
Demasiado apoiada em dicotomias e clichés, ainda assim, a coisa funcionou, atrevo-me a considerar.

Centrando-me no plano vocal e dramático, a meu ver, diria que os intérpretes da récita transpiraram labor e empenho!

Vocalmente, o nível dos três principais solistas pareceu-me bastante homogéneo, o mesmo não se verificando no tocante às dimensões interpretativa e dramática.

Guelfi compôs um Iago muito sólido, algo estático e contido na mímica, mas muito convincente, particularmente na faceta corrosiva e intriguista. A malícia expressou-se vocalmente de forma eloquente, sobretudo no Credo, ponto alto do barítono, nesta récita.

Malagnini - que debutou no papel titular, precisamente nesta (re)produção - arriscou, tremeu, mas salvou-se!

Interpretar este papel é tarefa árdua e espinhosa, desde logo pela tessitura exigida: nem muito aguda, nem muito média, à mi-chemin entre o tenor e o barítono, mais para os lados do tenor-spinto, voilà.
Ora, facto interessante, os grandes intérpretes de Otello - particularmente Vinay e Domingo - haviam iniciado as respectivas carreiras como barítonos, optando mais tarde pela tessitura aguda, de tenor (Bergonzi, tenor verdianíssimo, que teve um percurso vocal similar, infelizmente, nunca abordou o papel titular de Otello...)!

Mario Malagnini convenceu-me vocalmente: não falhou a mais ínfima nota, contornando com habilidade e mestria todas as dificuldades que a partitura coloca ( e não são poucas!); pecou pela excessiva clareza e abertura do timbre (desadequados, quando de Otello se trata), apesar da bravura indesmentível!
Quanto a futuras interpretações deste papel, ou cultiva e aprofunda a dimensão dramática - mediocre, de mímica rígida e paupérrima -, ou limita as suas aparições a versões de concerto.

O talento da La Theodossiou é já assunto corrente nas récitas do São Carlos.
Soprano verdiano de primeira linha, Dimitra encarnou a mais lírica das heroínas que Verdi compôs. Pessoalmente, prefiro-a no primo Verdi - Odabella, Lina, Giselda...

A Desdemona da interprete grega revelou-se primorosa em termos interpretativos, muito rica e expressiva, sem nunca ter embarcado em exageros histriónicos; Theodossiou mostrou-se ainda, notável na gestão dos pianissimi - ela que conta com uma técnica falível - e, por vezes, algo excessiva no emprego do vibrato, que conferia demasiado peso e carácter à personagem.

Do naipe dos solistas, destacaria ainda a prestação de Carlos Guilherme, que muito me surpreendeu! Apesar de um pouco arrebatado e exagerado na expressão (particularmente na voz, à la Di Stefano), compôs um Roderigo assaz juvenil e bem timbrado! Com a idade com que conta e os empregos dados à voz, é obra!

Last but not least, uma palavra especialíssima para a magnífica direcção de Pirolli, que dirigiu com perícia, astúcia e muito talento uma OSP, pour une fois, coesa, responsiva, afinada e pujante (coisa rara...).


Dada a elevada qualidade das récitas verdianas no TNSC, nos últimos anos, - Falstaff (2000), Il Trovatore (2001), La Traviata (2002), Stiffelio (2003), Simon Boccanegra (2004) e Otello (2005) - começo a vergar-me diante das sábias opções da direcção de Pinamonte, esteja ele onde estiver...

Para a posteridade, deixo a recomendação de três Otello´s de antologia:


(Toscanini, 1947 - RCA GD 60302)


(Serafin, 1960 ? RCA 09026 63180 2)


(Kleiber, 1976 ? Music & Arts CD-1043)

14 comentários:

Anónimo disse...

Concordo com a sábia apreciação do meu amigo João. Confirmo a excelência da gravação ao vivo do Scalla com a dupla Domingo/Freni sob a direcção do mítico Maestro Kleiber. Gravação de que sou apreciador e defensor acérrimo.
João Ildefonso.

Il Dissoluto Punito disse...

Estavas lá? E não disseste nada? UM GRANDE ABRAÇO, CARÍSSIMO JOÃO!

MyHiraeth disse...

Pergunto-me o que nos trará a nova direcção do TNSC nesta temporada, confessando-me esperançada, mas receosa depois das tuas palavras, amável Punito....

Agora que penso nisto, deliciou-me uma ideia, talvez peregrina pelo romantismo vitoriano (desta vez dispensa-se o gótico..ou não?):não era um belo sítio para te deparares com uma fada galesa?
Que dizes, saudoso Macabre?...

Il Dissoluto Punito disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Il Dissoluto Punito disse...

Um encontro, contigo e com o Maior dos Macabros, no TNSC? Claro que sim!

Fica nas vossas mãos a marcação do dia e hora, dado que o lugar é consensual :-)

LeGrandMacabre disse...

Se tal encontro não aconteçer, não há fada que nos salve de uma punição macabra.

Combinamos para a semana, num dia soalheiro...

Abraço aglutinador

leGRANDmacabre

Paulo Esteireiro disse...

Mais uma vez tenho de reconhecer: outra excelente crítica que merecia sem dúvida ser publicada, devido ao elevado pormenor que atinge. A minha total admiração.

Concordo com quase tudo:
- encenação demasiado conservadora e pouco surpreendente (e não gostei mesmo do trabalho com os cantores principais);
- excesso de vibrato da Theodossiou ocasionalmente;
- Malagnini fantástico musicalmente (que tenor!), mas pior dramaticamente;
- O Guelfi esteve muito bem.

Só não concordo tanto na orquestra. Gostei bastante da interpretação, mas achei que infelizmente, o problema da afinação surgiu aqui e acolá (houve momentos que até franzi as sobrancelhas... :)

As suas críticas operáticas já são uma referência para mim.

Paulo Esteireiro

Il Dissoluto Punito disse...

Meu Caro Paulo,

Fico sem palavras, depois de lê-lo...
Nem sei o que dizer...

Se, alguma vez, a música me der mais dividendos do que a psicologia e a psicanálise, prometo mudar de ramo!

Já agora, repito a admiração com que leio o seu blog, também ele uma referência para este melómano ;-)

Um abraço,
João

Paulo Esteireiro disse...

Não tem de agradecer nem retribuir. São elogios sinceros e naturalmente desinteressados. Quanto à mudança de profissão: era a crítica musical que ganhava. No campo da ópera, não conheço nenhum crítico melhor em Portugal.
PE

Anónimo disse...

Caríssimo João.
Regresei ao Otello. Malagnini sabe cantar e é louvável não "fabricar" o que não tem e limitar-se a cantar coma sua voz mas.... um Otello sem um timbre escuro e um instrumento pujante reduz o papel a um marido abusador num quadro de violência doméstica num contexto bastante pequeno burgês. Perdê-mos algo não? A Theodossiou manipula a escrita vocal de forma a raramente sair da sua zona de conforto vocal... um eterno pianissimo.... quando não o pode evitar apresenta um instrumento fracturado em várias vozes diferentes! O Guelfi é o único a apresentar uma voz idónea ao papel que canta e faz o possivel por dar vida ao seu papel numa direcção de actores banal sem uma ideia que não tenhamos já visto. Senti-me enganado....
João Ildefonso.

Il Dissoluto Punito disse...

João, concordando contigo em quase tudo, não me senti enganado!
um abraço,
João

Il Dissoluto Punito disse...

Macabro e Myhiraeth,

Fico a aguardar o encontro :-)

Anónimo disse...

Então não se recomenda
Karajan: del Monaco, Tebaldi, Protti (Decca) ?

Inaceitável !!!!!

Raul

Il Dissoluto Punito disse...

Raul,

Não! Não e não! Detesto o Otello do von Karajan!