sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Il Trovatore - Met Opera House - I - Antevisão da (relativamente) nova produção (McVicar)

McVicar assina uma nova - ma non troppo - encenação de Il Trovatore, de Verdi (entretanto estreada, como se verá de seguida), no Met:

«A GYPSY burned as a witch, infants switched at birth, mortal enemies who have no idea they are brothers: it sometimes seems that Verdi’s romantic melodrama “Il Trovatore” exists just to be made fun of. The tradition goes back a long way.

Julian Budden’s three-volume study of Verdi’s operas notes that within months of the “Trovatore” premiere in 1853, parodies were springing up not only in Italy but also abroad. That vogue for satire was “a sure sign of overwhelming popularity,” Mr. Budden wrote, adding that “of all his output, ‘Il Trovatore’ was the most loved in Verdi’s own day.” In the English-speaking world sendups like “The Pirates of Penzance” (1879) and “A Night at the Opera” (1935) are classics in their own right.

The Scottish director David McVicar, a huge star at the Royal Opera in London and elsewhere, is not among the work’s defenders. His new production, his Metropolitan Opera debut, opens on Monday.

“On a bad day I think ‘Il Trovatore’ is one of the stupidest operas ever written,” Mr. McVicar said shortly after arriving in New York. “Before I took it on, I thought that. But that’s why I took it on. Obviously it doesn’t work on an intellectual level the way Mozart’s great operas do. But at an emotive level the grand passions have huge power.”

Opera stages, notably in Germany, are overrun with university-trained director-theorists who fancy themselves whistle blowers, impelled to expose the rottenness at the core of the societies that produced them. Too often their imposed concepts and radical critiques make better polemics than theater. At first glance Mr. McVicar, 42, may seem to be one of them.

But no. His reservations about “Il Trovatore” notwithstanding, he acts as Verdi’s advocate almost in spite of himself. Maintaining the Spanish locale, he moves the action from 1409 (an unremarkable year in an era of obscure power struggles) to the still-remembered Spanish War of Independence, fought against Napoleon and memorialized for the ages in the nightmare imagery of Goya’s “Desastres de la Guerra.”

“What guides me,” Mr. McVicar said, “is that that period must work musically. The early 19th century fits with Verdi’s tinta, the dark palette he creates for Spain.”

In Mr. McVicar’s hands, “Il Trovatore” thus has a chance to emerge as the drama Verdi intended rather than as the succession of magnificent melodies less exacting interpreters settle for.

“Verdi believed in ‘Il Trovatore,’ ” Mr. McVicar said. “I don’t want to mock it. I wanted to see if I could make it work on its own terms, as I imagine he wanted it to be. All I have to work with is my imagination and my research. And the cast. I’m not a prescriptive director. I have to make the singers look closely at motivation, to find a reality that works for them. Without that the opera won’t yield up much.”

Manrico, the troubadour of the title, is both a poet and a man of war, given to fits of violence. The tenor Marcelo Álvarez has a volatile quality Mr. McVicar considers perfect for the part.

The baritone Dmitri Hvorostovsky is Count di Luna, the elder brother Manrico does not know he has. In one of the trickiest moments for the stage director, the two men prowl a palace garden, and Leonora, the woman they both desire, mistakes the hated di Luna for her beloved Manrico.

“It’s dark,” Mr. McVicar said. “She’s working on smell, on the way her skin feels as the man gets close. It’s a moment we might find in Shakespeare, only he would have written it better. All Leonora’s senses tell her this is her man. And here’s Hvorostovsky with his beautiful mane of silver hair, looking nothing like Álvarez. There has to be some way to make that hair work theatrically.”

Leonora is portrayed by the soprano Sondra Radvanovsky. Too often, Mr. McVicar finds, the character comes onstage as a “poncy lady in a big frock.” To him she is closer to a Brontë heroine on the moors, or to Beethoven’s Leonore in “Fidelio,” who, like this Leonora, will stop at nothing to free her man from prison.

Neither brother, in Mr. McVicar’s view, loves Leonora for the “brave, complex, human being she is.”

“For them,” he said, “she’s more like a football. It’s almost as if they sensed their lost bond, and that’s the source of their hatred.” Despite that hatred, Mr. McVicar pointed out, neither brother proves capable of killing the other by his own hand.

At the opera’s climax Leonora offers di Luna sex for Manrico’s freedom and instantly swallows slow poison. Even so, Mr. McVicar is convinced that she fulfills her part of the bargain.

“There’s no doubt in my mind,” he said. “And for the artist it’s a far more dramatic choice. But that’s Sondra too. We’ve butched her up, made her proactive. This isn’t a lady who needs much rescuing.”

By consensus, originating with Verdi himself, the most fascinating character in the opera is Azucena, daughter of the Gypsy burned as a witch. At the same time her back story is the crux of the “Trovatore” problem. Azucena is the one who kidnapped di Luna’s brother, intending to throw him into the fire. In her confusion she incinerated her own son instead, then raised Manrico as the instrument of her revenge.

The mezzo-soprano Dolora Zajick, returning to the Met 20 years after her house debut in the part, has given Azucena’s role as the opera’s prime mover a lot of thought.


“It’s not an opera I’d choose to go and see,” he said. “Mind you, there are many Wagner operas I wouldn’t buy a ticket for. But I’m doing ‘Parsifal’ and ‘Meistersinger’ because I have to wrestle with their unsavory, unhealthy aspects. I can’t stay with Mozart in my comfort zone all the time.”»

(ensaio de Il Trovatore, Met, com Hvorostovsky em primeiro plano)

Devo adiantar o meu total acordo com a absoluta patetice do argumento de O Trovador, sem rodeios. Além da falta de consistência - ficcional, fantasiosa, no limite – da trama da ópera, o disparate atinge níveis circenses.

Paradoxalmente, esta ópera – um dos vértices da famosa trilogia verdiana, do período inicial (Rigoletto, La Traviata e Il Trovatore) – reúne das mais belas páginas da escrita lírica – verdiana e não só! -, contendo armadilhas e exigência técnicas que apenas um curto leque de artistas pode enfrentar. A famosa tirada de Toscanini – A ópera convoca os quatro maiores cantores do mundo -, entretanto banalizada, mantém toda a actualidade, tendo a sua óbvia razão de ser.

Quanto ao olhar sobranceiro de McVicar, que remata o artigo (bold da minha autoria), confesso não o entender...
Prosaicamente, parece cuspir no prato em que come, não?!
Que me perdoem a expressão, grosseira mas verdadeira, caramba!

14 comentários:

Hugo Santos disse...

Não se poderia esperar outro resultado de um dramalhão espanhol. A música, essa é, no mínimo sublime. Talvez a minha ópera favorita.

J. Ildefonso. disse...

Não percebo. O argumento não é idiota e aliás bastante contemporaneo e actual. Ainda o Verão passado lembro-me de ler um artigo no Guardian sobre sobre os ataques dos Napolitanos a um acampamento cigano devido a um elemento ser suspeito de tentar roubar um bébé e ter em tempos lançado um mau olhado no oficial da poliçia. A mim o Trovador devidamente contextualizado pareçe-me bastante plausivel.

Hugo Santos disse...

Caro João Ildefonso, não sabia dessa história bastante curiosa. De qualquer modo, as tramas e recursos dramáticos empregues por Gutierrez não eram novidade à época. Havia já toda uma fundação pelo que o autor não inventou nada.

Ricardo disse...

Não gosto do Trovatore... Acho a história uma patetice de primeira e a música de 3ª dentro da produção de Verdi. Salva-se a música composta para Leonora (um estudo claro da música da Violetta que havia de vir depois). No resto, é mau Verdi no seu pior, na minha opinião e constitui um retrocesso assinalável relativamente ao Rigoletto.

Hugo Santos disse...

Para mim, já o disse aqui, a música do Trovador assemelha-se a uma torrente constante de inspiração. Na forma, será um passo atrás relativamente ao Rigoletto. No entanto, julgo que a música sobrepõe-se a tudo. Cada um com a sua opinião.

Raul disse...

Você gosta d' Os Lusíadas ?

J. Ildefonso. disse...

A história do Trovador está perfeitamente enquadrada na estética da época e não é mais pateta do que a de muitos outros libretos de meados do século XIX. É claro que para nós que temos uma visão histórica e global da música habituados a uma estética Barroca e Clássica ou então contemporanea o Trovador pode parecer muito primitivo e exagerado mas tal como escrevi no meu outro post é um argumento perfeitamente verossimel numa sociedade primitiva e exagerada como a Napolitana.
Quanto à música devido ao seu sucesso o Trovador tal como o Ernani foi vítima duma prática executiva que acredito que não beneficia muito, pelo menos em toda a sua dimensão, a subtileza e nuance presente na música. Há optima música para a Leonora, Conte di Luna e também para o Manrico, especialmente nos duetos com a Azucena. Basta escutar a interpretação do Muti

Ricardo disse...

Sim, Raul, gosto dos Lusíadas, gosto de Fernando Pessoa, gosto de Sophia, gosto de Phillip Glass e gosto de muitas outras coisas.

Só não me consigo fazer gostar do Trovatore e acho-o uma obra menor de Verdi.

Raul disse...

Gostos por coisas medianas não se discutem e, por isso, é pena que não tenhe o privilégio que eu e muitos outros têm de gostar e tirar prazer do Trovador, uma obra-prima verdiana. As duas árias de Leonora e o dueto Manrico-Açucena estão entre as coisas mais belas que a ópera italiana nos deu.

mr. LG disse...

Caro Ricardo:
Não diga uma enormidade dessas, paleasee!!... ;-D
Il Trovatore é um bom passo em frente em relação ao Rigoletto e aponta já para Un Ballo in Maschera. Além disso Verdi, neste seu grande passo artístico-operático que é este início da sua fase mediana Rigoletto-Trovatore-Traviata (1851-53), da-nos já um cheirinho verista de final do séc. XIX com essa não menos grande obra que é a já citada La Traviata - música do futuro… para aquela altura (para nós já secular).
Atenção: Il Trovatore ainda não é o fulgor da sua maturidade dramática: Simon Boccanegra, Don Carlo (superlativo!), Aida (a mais o espectáculo Grand-Opera),e Otello.
Qual o verdadeiro(!!) opera buff que não vive sem os finais dos primeiros 2 actos do Trovador e sem grande parte do 3º Acto ( a partir da entrada em cena de Di Luna e Azucena)?
Oh, Manricos, Manricos… Pertiles, Lauri Volpis, Martinellis, del Monacos, Corellis, Bonisollis… onde vocês estão hoje??...
Jonas Kaufmann… a seu tempo… ousaríamos pensar??... ;-)
All the Best
Mr. LG

Ricardo disse...

Meu deus... de repente parece q infringi um decreto qualquer que obriga toda a gente a gostar do Trovatore. Não puxem por mim para começar a falar de Wagner, pq aí serei excomungado.

Ricardo disse...

Oh LG, nem diga uma coisa dessas... O Trovatore um passo à frente relativamente ao Rigoletto????

Só em termos formais, o Trovatore é um retrocesso enorme: Recitativo, ária, cabaletta, coro, recitativo, ária, cabaletta, recitativo, dueto, coro, cabaletta conjunta. A música não flui continuamente e varia entre momentos de boa qualidade a momentos de péssimo gosto. Um exemplo vivo é a cabaletta do Conte di Luna "Per me ora fatale". O tema da cabaletta até é bonito (para uma cabaletta, claro está) e de repente no meio, engata em modo baixo buffo e começa a debitar textozinho tonto em staccato ("no no no rapirte a me, no no no")?!?!?!?! Por favor, n me digam que é uma obra prima verdiana...

Pelo menos Donizetti usava e abusava de formas repetidas mas ao menos era consistente nisso, e uma pessoa já sabe ao que vai. O primeiro Verdi também, e só por isso e por não ter pretensões é melhor que o Trovatore.

Como eu costumo dizer, o Trovatore valeu a pena por a escrita da Leonora ter sido um estudo para a escrita da Violetta!

Raul disse...

O Rigoletto, Trovador e Traviata são obras do mesmo calibre. Posso concordar que formalmente não há novidade, mas isso não desvaloriza a ópera. Citando o Avant-Scène Opera no Trovador há melodias para duas óperas e algumas delas são das mais belas que Verdi escreveu. No Trovador há algo de novo: o nascimento do grande mezzo verdiano, essa voz cálida arrancada ao som de um violoncelo, cheia de laivos veristas, que veremos em mais óperas do Autor e não só (a Laura da Gioconda). Quanto ao Rigoletto, que eu adoro, não será em grande parte das vezes um grande dueto? Será por isso que "flui"? Em termos de escrita para o tenor, no Trovador ela regride em relação a do Rigoletto ? Acho que não.
Ricardo, pode dizer à vontade que não gosta de Wagner, embora eu ache que este não é o espaço apropriado, pois que num blogue que, por exemplo, seja orientado para a poesia ninguém vai dizer que não gosta Camões.

Hugo Santos disse...

Concordo em género, número e grau consigo, Raul.

Relativamente ao Conde de Luna em registo baixo buffo é o mesmo que advogar similaridades entre a agilidade necessária a uma Amélia do Baile de Máscaras e a uma heroína rossiniana. São dimensões completamente diversas, na minha modesta opinião.