sábado, 12 de abril de 2008

A Era Gelb, do Met

Seguramente, a Era Gelg, na Metropolitan Opera House, ficará marcada pelo volte-face financeiro. Depois de anos e anos de défice crescente – nomeadamente, dirante a longa gestão do polémico Volpe -, o Met vê as suas contas equilibrarem-se, graças ao engenho de Peter Gelb, que descobriu o ovo-de-colombo: comercializar a difusão de récitas do Met, dentro e fora dos Estados Unidos da América.




Desta feita, Paris é a cidade conquistada pela fabulosa manobra de marketing do administrador:

«C'était un samedi comme un autre au Metropolitan Opera de New York. Les matinées à 13 heures attirent, comme partout, un public un peu plus familial qu'en semaine, même si l'âge moyen des spectateurs reste élevé. La Bohème est depuis 1900 un des opéras fétiche du Met qui l'a programmé, à six exceptions près, depuis, toutes les saisons. C'est également un opéra où les spectateurs aiment retrouver leurs habitudes, un peu comme on enfile avec plaisir une vieille veste. En cent huit ans, l'œuvre de Puccini n'a connu ici que trois mises en scène. La première a été donnée jusqu'en 1952, la deuxième, réalisée par le célèbre cinéaste Joseph Mankiewicz, a été remplacée en 1981 par celle de Franco Zeffirelli.

Elle suscite toujours un intérêt passionné, comme l'atteste l'affiche barrée d'une triomphante annonce en rouge sold out. Le fronton du Met est en revanche décoré d'une sérigraphie de Francesco Clemente en forme de banderole annonçant la première dans cette salle de Satyagraha, l'opéra de Philip Glass inspiré de la vie de Gandhi, plus en phase avec la dynamique que souhaite donner Peter Gelb, le nouveau directeur, à cette respectable institution.

Seule surprise samedi, la présence d'un important dispositif de prise de vues : deux caméras à chaque coin de la scène, deux autres au-dessus de la fosse, deux en fond d'orchestre et une au balcon. Sans oublier les deux au bout de bras articulés, manœuvrées du premier balcon et, nec plus ultra, la dernière, mobile sur un rail fixe qui traverse la scène de long en large et commandée à distance.

Au grand soulagement de l'assistance, il ne s'agissait pas d'une mise en scène moderniste mais du matériel nécessaire pour la diffusion en direct et en haute définition de la représentation. Une opération rodée depuis deux ans en Amérique et dans de nombreux pays d'Europe mais effectuée pour la première fois vers la France.»

É prodigioso, convenhamos!

Aqui para nós, caro e prezado leitor, e se propuséssemos a difusão das récitas do Met... digamos... no Teatro Nacional de São Carlos? Matavam-se dois coelhos de uma só cajadada: acabava-se com a actual programação – a mais vergonhosa a que assisti -, corria-se com a direcção em funções e presenteava-se o público com uma superlativa lírica!

O que se lhe oferece dizer?

14 comentários:

Moura Aveirense disse...

1 voto a favor!

Anónimo disse...

Sem dúvida, o São Carlos encheria e, talvez, não com as mesmas pessoas que retiram os visons do armário apenas para ir ao São Carlos, convencidas da urbanidade de Lisboa...
Assim se conquista público e assim se o forma. Assim se aprende, por exemplo, que a Kat'a Kabanová não é uma atriz porno russa...
Aliás, não deveriam fazer isso só em S. Carlos, mas um pouco por todo o Portugal onde o mínimo canto lírico raramente chega.

Gustavo Infante

Fernando Vasconcelos disse...

Mais um voto a favor claro. Várias vantagens:

1) Criava um hábito de assistir a música que embora não rigorosamente "ao vivo" é o que mais se aproxima disso.

2) Criava o hábito de outras (mais) pessoas irem ao S. Carlos.

3) Rentabilizava economicamente o espaço.

4) Permitia-nos ouvir o que de melhor se faz no mundo.

dani disse...

no teatro real fazem projecçoes em video e é o teatro que é. nao vejo realmente nada contra essa sugestao. tambem teria o meu voto.

Anónimo disse...

Isto é o que vós sentem...agora imaginem o ambiente de cortar à faca,que se está gerando naquela casa...a procissão nem chegou ao adro...dos mais conscientes aos que o são menos...dos mais novos aos mais antigos,a estupefacção,a revolta pela descarada mediocridade...pelo já sussurrado nepotismo... não é possível salvar o S.Carlos? Não é possível haver cultura em Portugal? Não é possível haver saúde? Etc,etc?...Mas afinal o que é possível fazer neste Portugal de anões? Pode Haver poucos,mas há quem queira arregaçar as mangas...e tentar sair destas areias movediças...RECUPERAR A DIGNIDADE E FAZER ARTE!

Anónimo disse...

Em tempos ,no S.Carlos houve um ciclo de cinema Alemão sobre Richard Wagner,como por ex: Tannhäuser,do Festival de Bayreuth de 1978,com Hans Sotin; Bernd Weikl;Gwyneth Jones,etc,e direcção de Colin Davis.Produção que assisti ao vivo...e a emoção de a rever... e como foi bonito permutar esta experiência com outras pessoas...tudo isto é FORMAÇÃO!Formação de gostos e quem sabe,vocações!A mim aquele Festival de Bayreuth, o qual assisti na íntegra,ai, formou ou como tão modernamente se usa...FORMATOU!!!

Anónimo disse...

E se os melómanos como nós se juntassem e fizessem uma petição através da internet? Que tal? Podia ser no S.Carlos ou noutro teatro ou cinema. O que interessava era mostrar o nosso descontentamente pela mediocridade do actual S. Carlos e a sua direcção.
Raul

Ricardo disse...

O problema da actual mediocridade do São Carlos não é de resolução tão dramática e tão difícil quanto isso.

Na minha humilde opinião, o grande caos artístico que se instalou na casa deve-se a alguns factores bastante fáceis de resolver.

Acho que basicamente, há que apostar em gente nova! Gente cheia de vontade inovar. Há imensos jovens encenadores extremamente talentosos em Portugal e que nem se importariam de trabalhar de graça no São Carlos. Porque é que se continua a insistir na velha máxima de "tudo o que vem de fora é bom", quando há gente boa e barata em Portugal?

Este aspecto estende-se aos restantes departamentos do São Carlos: não faltam jovens maestros cheios de vontade de trabalhar no coro e colocá-lo a soar a alguma coisa. Não faltam jovens cantores a precisar de emprego! Porque não acabar com a perenidade dos contratos dos coralistas e instituir contratos à temporada? Ao fim da temporada os que pretendessem continuar teriam que submeter-se a nova audição! É uma maneira de manter as pessoas a construir o seu nível não se acomodando a cargos atribuidos, que é o que actualmente acontece!

Para quando um programa de Jovens Artistas à semelhança do que acontece em Covent Garden e na English National Opera e noutras grandes casas por aí fora? Não me venham dizer que não há porque não há dinheiro, pq com uma gestão cuidadosa consegue mesmo fazer-se mais com menos!
A chave para fazer mais está nas pessoas que se escolhem, e que é imperativo serem escolhidas pelo talento e não por tachinhos.

É este o desabafo de um jovem cantor em início de carreira.

Ricardo disse...

Claro que para isto, o São Carlos precisa de uma gestão eficiente, não precisa de críticas e não precisa de elogios "lobbyistícos".

Precisa de alguém com a coragem de colocar o dedo na ferida e alguém que tenha competência académica nas áreas da Música e da Gestão.

Será que é tão complicado quanto isso os senhores do largo do Rato compreenderem isto?

Que a música é algo que transcende completamente a actual tutela é algo que todos nós sabemos, pois só assim se justifica a barbárie que vai ser perpetrada nos Conservatórios (pois é, o Supletivo vai mesmo acabar e ser apenas permitido aos alunos de Canto - é a decisão oficial relativamente ao Conservatório de Aveiro à qual tive acesso); agora que a gestão seja tão atabalhoada, isso já só se explica com arrogância e falta de vontade em dialogar. Acima de tudo, uma grande falta de sensatez.

Teresa disse...

O post do João lembrou-me o projecto Òpera Oberta, no qual participam duas universidades portuguesas (Porto e Minho):

http://www.opera-oberta.org/por/ppor.html

Já agora, o TNSC também precisaria de um orçamento decente e de um modelo de gestão flexível, ou por outras palavras, independente artistica e administrativamente da tutela. A criatividade e a qualidade são difíceis quando quase todo o orçamento disponível serve para cubrir gastos fixos.

Obviamente, o que acabo de escrever não é, de todo, uma justificação do que tem vindo a acontecer no TNSC durante a presente temporada. E também não é nenhuma descoberta. É apenas uma lembrança.

Saúde.

Teresa disse...

Sou eu, outra vez. Por acaso, coisas como esta também fazem a - substancial - diferença:

"The announcement of Mr. Gelb’s appointment to the Met was made in October 2004. He joined the Met in January 2005 and worked closely with Mr. Volpe and Maestro Levine, as well as with the board of directors, staff, and administration, to plan for the Met’s future, before taking over as General Manager in August 2006."

Compare-se com o que aconteceu durante a passagem, completamente controlada pela tutela, da "era Pinamonti" para a a "era Damman"...

Hugo Santos disse...

Eu depois de ter ouvido o sr. Dammann a justificar a contratação de cantores medíocres para os primeiros elencos com o facto de terem feito audições, passei a esperar tudo. É ler a crítica de Jorge Calado no "Expresso" sobre estes últimos Contos de Hoffmann. O São Carlos entrou numa espiral descendente fruto da nefasta intervenção da tutela. O resto está à vista: cantores de quinta, encenadores incompetentes e alheios ao universo operático, maestros sem categoria e uma direcção que claramente não sabe o que faz. Há já quem comece a pedir a cabeça do Sr. Dammann. Na minha opinião, já devia ter sido "decepado". Neste momento, o melhor para o São Carlos deveria retomar o caminho trilhado por Pinamonti. Não só seria benéfico apostar na transmissão das récitas do MET como divulgar as produções da casa. Recorde-se, a esse propósito, as transmissões do incompleto Anel de Graham Vick.

Cumprimentos.

Lilo disse...

Belíssima ideia! Se se transmitiu para vários e incautos teatros por esse país fora a inenarrável "Das Märchen" do ainda - se possível - ainda mais inenarrável Nunes, também deverá ser possível transmitir óperas de qualidade - para variar - no São Carlos!

Anónimo disse...

Peço desculpa pela falta de originalidade, mas subscrevo inteiramente a opinião de Ricardo.
M.Júlia