domingo, 11 de novembro de 2007

A Sonâmbula (I) - um olhar psicanalítico


(Giuditta Pasta, a primeira Amina da história)

A opera A Sonâmbula, de Bellini, além de todos os méritos musicais que contem, apresenta-nos um prodigioso quadro clínico de histeria, sendo de realçar o predomínio de sintomatologia dissociativa - o sonambulismo.

A jovem e doce Amina, menina singela, bem comportada, de conduta irrepreensível e modos graciosos, encontra-se noiva de Elvino, um rico agricultor suíço. No dia em que firmam o noivado, eis que Rodolfo, rico e poderoso conde, instala-se na aldeia onde o futuro casal vive.

Desde logo, entre Amina e Rodolfo cria-se um clima marcado pelo desejo. O conde dirige-lhe galanteios, que ecoam eroticamente na jovem.

Evidentemente, o conde dispõe de atributos mais excitantes que o agricultor!

Desde logo, a virilidade surge expressa na voz de baixo – recordo que Elvino, o rival de Rodolfo, é geralmente interpretado por tenores líricos, de voz límpida e de fácil agudo... -, nos modos aristocráticos e no glamour. É verdade que, de início, o conde oculta a sua condição nobiliárquica, embora todos, sem excepção, a intuam, dados os múltiplos indícios de desafogo e linhagem que o senhor vai revelando.


(cartaz publicitário de A Sonâmbula, com Maria Malibran como intérprete do papel titular da ópera)

O conflito instala-se, então, em Amina: a luta entre o desejo por Rodolfo e a defesa contra o mesmo desejo ameaçam assumir proporções neuróticas.

Uma menina decente, que zele pela sua conduta, não pode permitir-se desejar outro homem, além do seu... O facto é que o desejo por Rodolfo é difícil de camuflar.

Num primeiro momento, a jovem irá reprimir o desejo, por via do recalcamento – o desejo é esquecido. Porém, como recorda Freud, o recalcamento não é um mecanismo perfeito! Uma das formas que o material recalcado tem de escapar à censura – instância que materializa o recalcamento, justamente - consiste em retornar à consciência, nomeadamente através da formação de sintomas!

Assim, lado a lado com a construção onírica, e os lapsos, a formação de sintomas dá corpo ao retorno do recalcado. Ou seja, o material que o indivíduo se esforça por manter inconsciente - não sendo capaz, por isso mesmo, de o recordar -, de forma disfarçada, consegue aceder à consciência.


(a famosa cena de sonambulismo, do segundo acto)

No caso presente, o sintoma – sonambulismo – tem o valor de sinal, representando o desejo que Amina reprimira! De facto, comme par hasard, o sonambulismo leva a jovem inocente direitinha ao quarto do Conde… para fazer sabe Deus o quê

Dito de outro modo, o sintoma estabelece um compromisso entre possibilidade da realização de um desejo e a defesa contra o mesmo. De facto, não podemos dizer que a jovem Amina concretize o que quer que seja com o viril aristocrata, embora também não possamos afirmar que o seu anseio desapareça!

Assim, neuroticamente, a donzela realiza parcialmente o desejo – o sonambulismo aproxima-a do conde – sem que a sua integridade moral seja atingida ou questionada!

Ora, se por um lado a conflitualidade neurótica revela um funcionamento mental bem elaborado, fazendo prova de grande dinamismo intra-psíquico, por outro - para o bem e para o mal -, jamais o sujeito neurótico pode assumir e concretizar o seu desejo mais profundo.


(Jenny Lind, outra famosa Amina)

No caso de Amina, aquilo a que assistimos é a uma distorção patológica do desejo: na impossibilidade de o poder viver com o homem que a excita, a jovem retorna para os braços de Elvino, que por muito acolhedores e ternos que sejam, não a tratarão como fêmea.

Moral da história: a união com Elvinito trará a Amina uma valentíssima frigidez, sem sombra de dúviva!!! Ou não fosse a menina uma grandessíssima histérica!

10 comentários:

goldluc disse...

Parabéns! O conhecimento e a simplicidade esclarecida dos seus textos continuam a deliciar-me. Obrigado pela clarividência. Cumprimentos.

Heitor disse...

Caro João,

Para leigo entender: poderá a visualização de um DVD com a, hummm..., Netrebko, por exemplo, vir-me a causar sonambulismo??!!!


Saudações,

Heitor

Il Dissoluto Punito disse...

Goldluc,

Só posso agradecer-lhe ;-)))
Volte sempre e comente!!!

Il Dissoluto Punito disse...

Heitor,

Bom... espero que a sua cara-metade não tenha acesso a este espaço, onde revela um desejo secreto... pela bela Annesca ;-)

Anónimo disse...

Quem dera a muitos uma bela neurose com que se entreter, no lugar de um narcisismo com que se debater!

Margot disse...

Finalmente. Há seculos esperava uma critica assim.

Il Dissoluto Punito disse...

Anónimo,

E se se identificasse?

Il Dissoluto Punito disse...

Margot,

:-))))))))))))))))))))))

Margot disse...

Sempre tive queda para os narcísicos, principalmente quando são colegas psis. ;)

Mas de facto concordo com o carissimo anónimo. Custa-me ler tanta critica destrutiva quando, provavelmente, nem sabe cantar.
É mais fácil falar do que fazer... mas é muito mais interessante cantar do que criticar, isso garanto. E faz melhor à saúde, também. Porque "quem canta seus males espanta". Experimente!
Saudações liricas

Margot, soprano lírico ligeiro e psi! :D

Il Dissoluto Punito disse...

Margot,

Sempre apreciei muito os sopranos líricos-ligeiros-psis ;-)))))