Embora não esteja, hoje, particularmente inspirado, conforme prometera, aqui vai, por fim, a minha apreciação detalhada desta pérola musical e teatral.

(DG 00440 073 4095)
A glória desta magistral interpretação, da mais brutal das óperas de Richard Strauss - Elektra, de sua graça -, radica na direcção de Böhm, na composição de Rysanek e, acima de tudo, no labor de mise-en-scène, que conta com a assinatura de Götz Friedrich.
A prodigiosa encenação de Friedrich - que data dos anos 1980, sendo intemporal - sublinha o óbvio, qual Ovo de Colombo, exacerbando-o, até aos limites do representável.
Elektra é uma ópera crua, despudorada e selvática sobre a brutalidade, dominada pela libido, na mais categórica das acepções do termo, como Freud o concebeu: expressão da agressividade e da sexualidade.
O encenador compreendeu esta dualidade, explorando-a e representando-a, como poucas vezes tive ocasião de ver, em matéria de produção operática, claro está!
Por que falo de óbvio?! Justamente, porque a tónica da encenação é colocada na incompatibilidade inexorável de dois mundo, clivados em absoluto: o de Elektra - monocromático (predominantemente cinza, com dégradés, alusões a um luto paterno inelaborável, que domina toda a trama), brutal, primário, rochoso e desgrenhado - e o de Klytämnestra - sofisticado, ornamentado até à exaustão, dominado por um erotismo perverso e luxuriante...
Plasticamente, esta concepção é alvo de um trabalho memorável, sendo os contrastes sublinhados com grande mestria: os mundos de Elektra e de sua mãe - absolutamente antagónicos - são entremeados por uma coluna clássica, de uma simplicidade notável!
O elemento clássico - riquíssimo, do ponto de vista simbólico, a começar pelo equilíbrio que encerra - sublinha as diferenças, assumindo-se como um marco de fronteira (e alternativo, se quisermos, à insanidade e perversão...), que se distingue de um e de outro dos universos, radicalmente.
Que eficácia singela! Notável!!!
A direcção de Böhm - que dirige pela derradeira vez, em estúdio, se não me engano - é meticulosa, muito precisa mas visceral: a rica expressividade orquestral é extraída com uma astúcia calculada, absolutamente controlada, roçando a perfeição, pela excelência...
De início, os tempi poderão chocar os mais ortodoxos, pela lentidão, mas logo nos habituamos!
Vamos aos solistas...
Vergo-me vezes e vezes sem conta diante do talento de La Rysanek, straussiana absoluta.
Nesta interpretação, pela primeira e única vez, Leonie Rysanek encarna o papel titular da ópera - antes encarnara Chrysothemis e acabará a carreira na pele de Klytämnestra.
Esperou pelos cinquenta anos para o fazer, cedendo à sábia sugestão de Böhm.
A maturidade interpretativa domina a figura complexa e brutal de Elektra: a expressão alienada, o ódio, o rancor, o desespero, a imensidão da dor ganham asas na leitura de Rysanek, que se afirma como Elektra definitiva (brutal, como a de Nilsson e de Marton, mas mais feminina; colossal como a de Polaski, ainda mais humana que a de Behrens...).
A voz está mais madura e escura do que outrora - como se quer! -, veiculando de forma plena toda a complexidade da protagonista.
Astrid Varnay, no seu auge, encarnou também o papel titular da ópera, tendo mesmo sido considerada uma das suas intérpretes de referência, sobretudo pelo volume dramático e vocal que imprimia a Elektra.
Pessoalmente, sempre apreciei o seu arrojo e histrionismo, inversamente proporcionais à falível técnica.
Nesta interpretação, Varnay (bem entradota na idade...) compõe uma Klytämnestra tremenda, recorrendo à notória falibilidade vocal de forma assaz inteligente: coloca-a ao serviço da construção dramática da decadência! A voz fatigada e o crescentemente incómodo vibrato esbatem-se de forma impressionante, diante da espessura cénica de Astrid Varnay! Voilà, rien que ça! Eis o que, no meu modeste entender, constitui um exemplo sumo de «inteligência musical»!
A Chrysothemis de Ligendza é muito convincente, sobretudo em termos interpretativos.
Não tendo uma voz particularmente bela (antes pelo contrario... ácida e insegura, nas passagens mais agudas), Catarina Ligendza envolve-se num jogo dramático de forma arrebatadora, conferindo à personagem uma dimensão pueril extraordinária. A sua Chrysothemis encontra-se radicalmente presa a um conflito com contornos histéricos, irresolúvel: anseia pela maternidade, deseja assumir a sua feminilidade, tanto quanto as teme...
Destacaria, por último, a prestação de Fischer-Dieskau, maduro, bem trabalhado, altaneiro e soberano.
A cena que constrói com Elektra - desde o reconhecimento, até à concretização da vingança - constitui, a meu ver, o ponto alto desta notável récita: de uma riqueza dramática transcendente, pontuada pelo fascínio e pelo horror...
Enfim, uma magnifica interpretação, encabeçada por um elenco assumidamente sénior, que se move numa encenação assente em infinitos desdobramentos da crueza, cuja expressão - quase pornográfica! - é avessa aos limites...
Um valor seguríssimo, interdito a menores de 30 anos, porque prolixo em cenas altamente chocantes...

(DG 00440 073 4095)
A glória desta magistral interpretação, da mais brutal das óperas de Richard Strauss - Elektra, de sua graça -, radica na direcção de Böhm, na composição de Rysanek e, acima de tudo, no labor de mise-en-scène, que conta com a assinatura de Götz Friedrich.
A prodigiosa encenação de Friedrich - que data dos anos 1980, sendo intemporal - sublinha o óbvio, qual Ovo de Colombo, exacerbando-o, até aos limites do representável.
Elektra é uma ópera crua, despudorada e selvática sobre a brutalidade, dominada pela libido, na mais categórica das acepções do termo, como Freud o concebeu: expressão da agressividade e da sexualidade.
O encenador compreendeu esta dualidade, explorando-a e representando-a, como poucas vezes tive ocasião de ver, em matéria de produção operática, claro está!
Por que falo de óbvio?! Justamente, porque a tónica da encenação é colocada na incompatibilidade inexorável de dois mundo, clivados em absoluto: o de Elektra - monocromático (predominantemente cinza, com dégradés, alusões a um luto paterno inelaborável, que domina toda a trama), brutal, primário, rochoso e desgrenhado - e o de Klytämnestra - sofisticado, ornamentado até à exaustão, dominado por um erotismo perverso e luxuriante...
Plasticamente, esta concepção é alvo de um trabalho memorável, sendo os contrastes sublinhados com grande mestria: os mundos de Elektra e de sua mãe - absolutamente antagónicos - são entremeados por uma coluna clássica, de uma simplicidade notável!
O elemento clássico - riquíssimo, do ponto de vista simbólico, a começar pelo equilíbrio que encerra - sublinha as diferenças, assumindo-se como um marco de fronteira (e alternativo, se quisermos, à insanidade e perversão...), que se distingue de um e de outro dos universos, radicalmente.
Que eficácia singela! Notável!!!
A direcção de Böhm - que dirige pela derradeira vez, em estúdio, se não me engano - é meticulosa, muito precisa mas visceral: a rica expressividade orquestral é extraída com uma astúcia calculada, absolutamente controlada, roçando a perfeição, pela excelência...
De início, os tempi poderão chocar os mais ortodoxos, pela lentidão, mas logo nos habituamos!
Vamos aos solistas...
Vergo-me vezes e vezes sem conta diante do talento de La Rysanek, straussiana absoluta.
Nesta interpretação, pela primeira e única vez, Leonie Rysanek encarna o papel titular da ópera - antes encarnara Chrysothemis e acabará a carreira na pele de Klytämnestra.
Esperou pelos cinquenta anos para o fazer, cedendo à sábia sugestão de Böhm.
A maturidade interpretativa domina a figura complexa e brutal de Elektra: a expressão alienada, o ódio, o rancor, o desespero, a imensidão da dor ganham asas na leitura de Rysanek, que se afirma como Elektra definitiva (brutal, como a de Nilsson e de Marton, mas mais feminina; colossal como a de Polaski, ainda mais humana que a de Behrens...).
A voz está mais madura e escura do que outrora - como se quer! -, veiculando de forma plena toda a complexidade da protagonista.
Astrid Varnay, no seu auge, encarnou também o papel titular da ópera, tendo mesmo sido considerada uma das suas intérpretes de referência, sobretudo pelo volume dramático e vocal que imprimia a Elektra.
Pessoalmente, sempre apreciei o seu arrojo e histrionismo, inversamente proporcionais à falível técnica.
Nesta interpretação, Varnay (bem entradota na idade...) compõe uma Klytämnestra tremenda, recorrendo à notória falibilidade vocal de forma assaz inteligente: coloca-a ao serviço da construção dramática da decadência! A voz fatigada e o crescentemente incómodo vibrato esbatem-se de forma impressionante, diante da espessura cénica de Astrid Varnay! Voilà, rien que ça! Eis o que, no meu modeste entender, constitui um exemplo sumo de «inteligência musical»!
A Chrysothemis de Ligendza é muito convincente, sobretudo em termos interpretativos.
Não tendo uma voz particularmente bela (antes pelo contrario... ácida e insegura, nas passagens mais agudas), Catarina Ligendza envolve-se num jogo dramático de forma arrebatadora, conferindo à personagem uma dimensão pueril extraordinária. A sua Chrysothemis encontra-se radicalmente presa a um conflito com contornos histéricos, irresolúvel: anseia pela maternidade, deseja assumir a sua feminilidade, tanto quanto as teme...
Destacaria, por último, a prestação de Fischer-Dieskau, maduro, bem trabalhado, altaneiro e soberano.
A cena que constrói com Elektra - desde o reconhecimento, até à concretização da vingança - constitui, a meu ver, o ponto alto desta notável récita: de uma riqueza dramática transcendente, pontuada pelo fascínio e pelo horror...
Enfim, uma magnifica interpretação, encabeçada por um elenco assumidamente sénior, que se move numa encenação assente em infinitos desdobramentos da crueza, cuja expressão - quase pornográfica! - é avessa aos limites...
Um valor seguríssimo, interdito a menores de 30 anos, porque prolixo em cenas altamente chocantes...
6 comentários:
Fiquei abismada com esta portentosa crítica! Apeteceu-me ir a correr comprar ou encomendar um exemplar. E, confessava o seu autor não se sentir particularmente inspirado. Imagino o que escreveria se o estivesse.
Gostei muito de ler este post. Parabéns!
Caríssima,
Compre, compre, mas não veja esta pérola nesta quadra...
Une fois de plus, merci pour le compliment!
João Dissoluto
Dissoluto, tens sempre o condão de levar a minha curiosidade aos píncaros...
É assim tão crua e carnal, esta encenação? O enredo é realmente dos mais visceralmente violentos, e, sem ainda conhecer a ópera, imagino o que o Strauss tenha feito com ele - deve ser arrepiante!
Adoro essa dualidade entre as cinzas e o fogo...
Anseio por discutir pessoalmente contigo este assunto, em boa companhia e perfumado por uns bons taninos, na próxima semana...
A propósito - há males que vêm por bem - na próxima semana, o meu marido poderá jantar comnosco!!!
um beijo feérico, cheio de sininhos de Natal, flocos de neve, christmas carols, calorzinho de lareira e coroas de azevinho!
para ti, para a belíssima Margarida (a quem a maternidade tão bem assenta) e para o vosso terfeliano Tiago!
Gratos, gratos, caríssima!
Falaremos de tudo isto (e muito mais), pessoalmente!
Quanto à ELEKTRA... é interdita a menores de 30, definitivamente! Tudo é excessivo, cru e brutal! Extraordinário...
Não há palavras para descrever a qualidade deste DVD.
Raul,
É absolutamente definitivo, concordo consigo!
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