domingo, 18 de setembro de 2005

Opera Proibita: por fim, a minha opinião!



No auge da carreira, com 39 primaveras (e quase 20 anos de carreira, que iniciou em finais dos anos 1980), Cecilia Bartoli surge agora, discograficamente, sob o manto - diáfano? - da censura.

Conceptualmente, este trabalho distancia-se dos mais recentes, que se centravam, exclusivamente, na reabilitação da produção lírica barroca, de autores como Vivaldi, Gluck e Salieri (para seguir, cronologicamente, a ordem sob a qual foram interpretados, em termos dicográficos, por
La Bartoli).

Uma vez mais, Bartoli centra-se no seu repertório de eleição - o barroco -, que aborda, ora numa vertente lírica, ora num registo de
bravura (no sentido operático do termo, i.e., tudo subordinando à agilidade e brio da ornamentação).

A singularidade deste registo radica na edição de um conjunto de árias de ópera e de oratória - de Handel, A. Scarlatti e Caldara -, cuja expressão pública a censura eclesiástica, romana, setecentista, havia interditado.

Diga-se, em abono da verdade, que parte do repertório que integra este trabalho é conhecido do público - sobretudo no tocante a Handel -, tendo já sido abordado pela própria Cecilia Bartoli, noutros registos - Lascia la spina, cogli la rosa, de
Il Trionfo del Tempo e del Disingano, por exemplo.


A voz de Cecilia Bartoli, que sempre primou pela mestria técnica, apoiada numa talentosa respiração, apesar de pequena e pouco potente, é de uma beleza invulgar, redonda, bem matizada e infinitamente expressiva.
Trata-se de uma voz com carácter: balanceando, com igual à-vontade, entre o lírico puro e o buffo.

Agora, vamos à verdade... deste album !
Verdadeiramente, depois de uma cuidadosa audição, creio ter deparado com discretas alterações, no tocante à voz e técnica desta estrondosa cantora.

A voz está, hoje em dia - a avaliar pelo registo, que é recente (Agosto de 2004) - mais escura, tendo perdido, algo do cristalino que a caracterizava outrora...
A própria dicção se encontra algo comprometida, a fazer recordar o síndroma de Sutherland, embora num grau infinitamente menor, claro está!

A ornamentação - como diz o João Ildefonso, e bem ! - mostra-se menos espontânea, com alguns sinais de insegurança.

Quanto ao resto, o talento interpretativo, o arrojo da
bravura, a veracidade do engagement lírico, como sempre, são de primeira apanha.

Dada a rigidez da estrutura do disco - alternância, quase inalterável, entre a bravura pura e o lirismo -, considero particularmente eloquentes as árias
Come nembo che fugge col vento (que brota de entusiasmo e quase me faz dançar!) e Lascia la spina, cogli la rosa (de uma candura interminável...) que, respectivamente, ilustram os dois já citados registos.

A soberana cantora, que sai vitoriosa deste combate,
malgré tout, é dirigida por Minkowski (pela primira vez, segundo creio...), líder da formação Les Musiciens du Louvre.
O maestro francês, apesar de contar com uma brilhantíssima carreira, particularmente em territórios do barroco (Handel, Rameau, etc.), neste caso específico
, não me pareceu particularmente metódico!

Globalmente entusiasmado e inspirado, aqui e ali, denota algum descuido, nos detalhes - vide os inúmeros deslizes da flauta, por exemplo.



Enfim, este trabalho corresponde a mais uma salutar etapa de uma carreira ímpar.
Sendo uma obra da maturidade, imprescindível, situa-se um pouco aquém do extraordinário nível a que Cecilia Bartoli nos tem vindo a habituar, sobretudo desde 2000.

3 comentários:

Paulo Esteireiro disse...

Excelente Crítica. Tenho também o Disco e à primeira audição concordo com tudo. Não fiquei com a ideia que voz estivesse mais "escura", mas vou ouvir melhor o disco. Como a ouvi sempre em CD, também não tinha a noção de que a voz dela é pequena e pouco potente. Concordo plenamente quando diz que a voz é "infinitamente expressiva". É impressionante, não é?

Gostei muito da Crítica.
Paulo Esteireiro

Il Dissoluto Punito disse...

Muitíssimo obrigado, caríssimo !
Just tryinh to do my best !
Quanto ao tamanho da voz, acredite ser francamente pequeno ! Não se pode ter tudo, não é ? Vozes de coloratura e grandes (sopranos dramáticos, por exemplo), não há aos montes !
Sempre que a vi, procurei ficar em lugares próximos... quando as finanças o permitiam !
A voz da Bartoli é, por ventura, a mais expressiva que conheço ! Yep, yep !
Fico muito contente - once again - pelos seus comentários elogiosos ! Dá-me ânimo para continuar nesta vertente.
Aliás, sou um leitor assíduo dos seus, nomeadamente dos que versavam sobre a colossal Norman !

Anónimo disse...

Sabes que apesar dos progressos notáveis da Bartoli não consigo deixar de sentir uma enorme nostalgia pela pela Bartoli "1ª versão" da voz homogenea, quente, equilibrada, igual em todos os registros da Clemenza di Tito do iniçio dos anos noventa? Acho que, por vezes ,agora, lhe falta um certo "pudor" interpretativo que lhe compromete a comunicação de certos personagens mais "apaixonados"....

J. Ildefonso