domingo, 12 de agosto de 2007

Festival Internacional de Edimburgo’07 I – 60 anos de vida



Entre 10 de Agosto e 2 de Setembro, em Edimburgo, decorre um célebre e popular festival de artes – dança, música, teatro, ópera, performances, etc. -, que celebra actualmente os 60 anos de existência.

«El de Edimburgo no es sólo un festival de música clásica y ópera, teatro y danza. Es un festival de festivales -también de libros, cine, televisión y jazz y blues- que convergen en tiempo y lugar para convertir a la capital de Escocia durante tres semanas de agosto en un irresistible hervidero cultural donde lo oficial convive con lo alternativo, lo serio con la sátira y lo exclusivo con lo popular.Imposible dar abasto a tan ingente oferta, que sólo para el popular Fringe -el festival alternativo también nacido en 1947, del que las compañías ofrecen numerosos y vistosos aperitivos de sus espectáculos en plena calle para regocijo de transeúntes locales y foráneos, que estos días son muchos- supera los más de 2.000 espectáculos.»

A estreia da edição de 2007 teve lugar com a peça lírica de Bernstein, Candide.

«El mérito hay que atribuírselo con toda justicia al veterano barítono británico Thomas Allen, quien, en el doble papel de narrador y Pangloss, construyó un jugoso guión, por el mismo interpretado con maestría, con el libreto de Lillian Hellman como base e irónicas referencias a Bush, los Simpson, la política y la intolerancia religiosa que arrancaron las carcajadas del público. Junto a Thomas Allen y dando espontánea y convincente vida escénica a los personajes, pese a la versión concierto, estuvo brillante Matthew Polenzani como Candide; lírica y vivaz Laura Aikin en su personaje de Cunegunde; ácida y enérgica Kathryn Harris con su Vieja Dama, y acertados los personajes secundarios protagonizados por Keith Lewis, Jennifer Johnston, Tim Mirfin y Roland Wood, y el quinteto de aventajados alumnos de la Real Academia Escocesa de Música y Teatro. Spano, al frente de la Orquesta Sinfónica Escocesa de la BBC y el Coro del Festival de Edimburgo demostró no sólo ser un gran concertador sino un espléndido director de orquesta que ama con pasión la música del genial Leonard Bernstein.»

Moral da história: nem só de Salzburgo e / ou Bayreuth vivem as festividades líricas estivais!

sábado, 11 de agosto de 2007

Salzburgo V - Stabat Stars ossis As (Es)Trelas de Salzburgo



Nem mais, nem menos!

Palavras não eram ditas, eis que o repórter do Le Monde põe o dedo na ferida: as estrelas do firmamento salzburguês (particularmente, como destaca a notícia, as da major DG!) pretendem prender a direcção do festival – e o público, sublinhe-se! – pela trela, anulando os respectivos compromissos sob pretextos mais afins com o narcisismo e o capricho do que com a verdadeira incapacidade médica e / ou psicológica!

«Cela ne serait qu'une péripétie si les annulations n'avaient pas fait boule de neige cet été à Salzbourg : la mezzo Vesselina Kasarova s'est blessé le pied ; la soprano française Patricia Petibon vient d'accoucher ; Rolando Villazon (lui aussi chez DG) est malade depuis quelques semaines ; le ténor américain Neil Shicoff a annulé trois jours avant le début des répétitions de Benvenuto Cellini, de Berlioz car il était "déprimé et choqué" qu'on lui ait préféré le Français Dominique Meyer à la direction de l'Opéra de Vienne ; Mikhail Pletnev (lui aussi chez DG) ne jouera pas le 30, car il vient de décider de ne plus jouer de piano en public...

Gérard Depardieu (qui n'est pas chez DG), récitant dans Lélio, de Berlioz, les 12, 14 et 15 août, n'a pas encore annulé, mais il refuse que la télévision autrichienne le filme... Salzbourg est un festival de stars. M. Flimm ne se dit pas impressionné par elles. Devra-t-il désormais se résoudre à faire la guerre aux étoiles, à celles de DG particulièrement, une marque dont on disait naguère qu'elle tenait en laisse le Festival ?
»

As ditas estrela haviam de ter um Von Karajan à frente... Ele dava-lhes o arroz - ou a estrelite!

Só entre nós, caro leitor, se não é piroso e desajustado pretender assistir a um Stabat Mater (de Pergolesi, no caso), interpretado por Anna Netrebko, é pelo menos bem merecido levar uma tampa na cara ;-)

Salzburgo IV - Domingo vs Las Estrellas



Ou muito me engano ou Domingo permanecerá na história da lírica da segunda metade do século XX, pelo carisma, sentido artístico, talento e - é bom sublinhar - pela longevidade.

Ora mais megalómano, ora maniforme, ora humilde até ao âmago.
Os grandes homens (também) são assim, como os demais: terrenos.

Quanto aos divos & divas, que anulam compromissos por dá cá aquela palha, não me pronuncio. A história deles não falará, seguramente.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Salzburgo III - Eugénio Baremboim



Devo confessar - com respeito e... sobranceria - que o elenco deste Eugen Onegin não me fascinou.

Em Fevereiro deste mesmo ano, no Met, assistira a uma récita desta ópera, com um elenco absolutamente extraordinário: Fleming, Hvorostovsky e Vargas. Deslumbrante!

Dir-me-ão - não sem razão - que nada escrevi sobre o assunto... Assim foi. Não me apeteceu partilhar aquele prazer com mais ninguém, além da minha mulher.

Ainda assim, a récita a que assisti pecava pela mise-en-scène, de um minimalismo algo excessivo e despropositado. Nada que tenha que ver com a encenação deste Eugen Onegin, de Salzburgo, como segue:


«On ne sait pourquoi la première image (récurrente à chaque début d'acte) de son spectacle touche infiniment, alors qu'elle pourrait n'être qu'une de ces vignettes chic et choc dont abondent les mises en scène d'aujourd'hui quand elles ne succombent au trash : Eugène Onéguine, en manteau et chapeau, est assis dans la pénombre, dos au public, face à un écran de télévision où défile un paysage désolé qui s'éloigne indéfiniment, filmé depuis l'arrière d'un train. Tout est dit et, pourtant, tout dans ce spectacle très abouti donne sa place à la rumination du spectateur.

Certes, Andrea Breth semble penser, comme beaucoup d'entre nous, que la vie est "une suite d'espoirs à propos de choses qui ne se produisent jamais", comme dit le poète Yeats ; certes, sa Russie est celle des femmes rougeaudes et rustaudes en blouses de Tergal, celle de la fin de partie du communisme dans des provinces reculées où l'alcoolisme permet aux humains d'oublier un instant leur propre vulgarité. Monsieur Triquet, le Français chic et galant perdu là, a une maladie de peau qui le démange au-dessus des chaussettes, et, à la façon dont il reluque Tatiana, à laquelle il adresse des couplets ridicules, on sent qu'Andrea Breth a compris la connotation grivoise de son patronyme.

Mais c'est avec une finesse incroyable qu'elle magnifie le propos : la dernière scène n'a jamais montré à ce point d'incandescence l'hésitation bouleversée de Tatiana, lorsque Onéguine, qui avait refusé cruellement sa déclaration d'amour fou trois ans plus tôt, se jette à ses pieds. Entre-temps, Tatiana a fait un mariage d'amour sage avec un militaire qui a tout quitté pour elle, le comte Gremine. Là aussi, Andrea Breth montre un Gremine inédit à l'opéra, dans une vraie relation tendre avec Tatiana : non point barbon satisfait par la conquête d'une jeunette, mais homme mûr qui dit cette chose si réconfortante : "L'amour est à prendre à tout âge."

La subtilité de ce spectacle est à débusquer dans les "plis" de ce qui est montré : par exemple, dans l'attitude terrorisée du jeune garçon gauche qui assiste Onéguine lors du duel avec Lensky sans comprendre, ou plutôt en comprenant tout de cette folie morbide qu'est la jalousie. Ce travail scénique est tramé de ce genre de magnifiques détails qui tirent les larmes et dont on se souviendra longtemps.

On peut en revanche se demander si le spectacle n'aurait pas bénéficié d'un cadre plus intime, car Andrea Breth semble succomber à la technologie de cette grande salle et abuse des effets impressionnants de "tournette". En tout cas, voici une artiste qui sait diriger les chanteurs et utiliser à plein les ressources du spectaculaire.»

Bem vista a coisa, parece que, além da louvável encenação, a estrela da noite foi Danny Baremboim. Seja!

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

(mais) Surtos Maníacos...

... que redundam em compras, cuja lista segue em anexo!






Depois do luto, mania com ele ;-)
É sempre assim!

Heidi vs Marco: do luto

VS

Nos anos 1970, duas das mais famosas séries infantis de desenhos animados abordavam a questão da perda parental: Heidi e Marco. A primeira colocava a tónica no trabalho de luto / elaboração da perda, enquanto a segundo se centrava no abandonismo, variante patológica - porque perpétua - da dinâmica depressiva.

Por via da primeira, a criança percebia que a perda dos pais não era sinónimo de catástrofe: a figura reparadora do avô permitiu a Heidi crescer e expandir-se.

No caso de Marco – que me fez chorar baba e ranho, a mim e a tantos outros... -, numa linha mais patológica, retratava-se o desamparo (cuja ansiedade encontra resolução, nomeadamente, nas toxicofilias).

Se não me engano, Marco havia sido abandonado pela mãe que, soi-disant, "partira em busca de trabalho, para proporcionar uma melhor vida ao filho."
Creio que o pobre rapazinho almejava chegar à Argentina, onde imaginava que a progenitora se encontrava.

A canção tinha um refrão horrendo, macabro, que jamais esqueci:

Vais-te embora, mamã
Não me deixes aqui (...)”

O problema de Marco – como o de tantos outros filhos de abandónicos – reside, justamente, no desamparo, que constitui o ponto mais patológico da ansiedade de perda.

Idealizam a figura abandonante – "a puta da mãe", no caso de Marco -, negando o ódio que por ela sentem, legitimamente. Ora, este ódio é virado para o próprio, que se deprime, até à exaustão.

A idealização - que comporta uma negação das partes más do objecto parental - é uma doentia estratégia de sobrevivência, que permite ao sujeito manter (e preservar!) uma imagem idílica de uma figura essencialmente odiosa.

Só os "pais de merda" se idealizam e deixam idealizar! Os outros, também se deixam odiar.

Assim florescem as estruturas dependentes – tóxicas e afins – e se mina o narcisismo.

Salzburgo II: das encenações



O Le Monde considera medíocres as encenações de Armida e Der Freischütz, em cena em Salzburgo...

Eis dois excertos da notícia (o primeiro relativo a Armida e o segundo subordinado a Der Freischütz):

«En ces deux premières soirées, les 4 et 5 août, nous avons eu affaire au pire et au... moins pire. Christof Loy, représentant en l'occurrence le pire, a mis en scène une palanquée d'opéras. Ce n'est pas un débutant, mais on lui a fait le cadeau empoisonné de monter Armide, de Haydn, conçu à l'origine pour un théâtre de 400 places, sur la scène d'une largeur interminable de la Felsenreitschule. Comme Loy est un artiste chic, il ne remplit pas par du plein, mais par du vide, ou presque : une paroi de contreplaqué pentue sur laquelle grimpent et glissent les personnages en tenues de baroudeurs ; un mille-feuille de planches de bois.

(...)

Le lendemain, place à un Freischütz, de Weber, signé Falk Richter, moins aguerri que Loy à l'opéra. D'où, sûrement, une relative fraîcheur, une envie de faire, à défaut de faire vraiment bien. Evidemment, tout se passe dans un sous-sol de béton, les décadrages et décalages de lecture attendus sont au rendez-vous et les dialogues parlés forcément réécrits. Cette vision grotesque (au meilleur sens du terme) fonctionne dans les deux premiers actes et notamment pendant la scène fantastique de la gorge aux loups. Mais les effets vidéo deviennent anecdotiques à l'acte III et Richter émousse vite ses outils décapants.
»

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O Resgate de Edita

Recentemente, devo admitir que Edita Gruberovà voltou a fascinar-me! Na companhia de amigos, visionei excertos da sua Norma, gravada por ocasião dos seus 60 anos.



Teatral e cenicamente, a produção pouco vai além da mediocridade. Artisticamente, aí a coisa funciona: Scandiuzzi majestoso, Ganassi correctíssima e… Gruberovà deslumbrante (sobretudo vocalmente).

Se esta interpretação datasse dos 40 anos da artista, dir-se-ia tratar-se de um bálsamo. Aos 60... é notável, pela disciplina, pelo estilo belcantista, pela correcção. Enfim...

Apetece-me desejar-lhe, apenas, mais 60 longos anos de carreira!

Palavras não eram ditas quando deparei com este O Rapto do Serralho – o segundo mais famoso singspiel de Mozart, a seguir à A Flauta Mágica -, dirigido por Solti, com La Gruberovà no papel de Konstanze. Há anos que namoro este Die Entfuhrung aus dem Serail! O de Gardiner é óptimo, mas falta-lhe mais brilho... O de Fricsay é demasiado clássico...

Pois bem, não hesitei e... comprei-o! Por Solti, Talvela e Gruberovà, claro está!

Bayreuth VI: A Primeira Semana ossia do Der Ring



Este artigo do Le Figaro resume, em minha opinião, o grande problema de Bayreuth: as vozes!

Eis, em síntese, o calcanhar-de-Aquiles deste Der Ring:

« D'une manière générale, cette 96e édition pose une nouvelle fois le problème du rôle de Bayreuth. Si le festival veut garder sa position de référence pour l'interprétation wagnérienne, peut-il se permettre des distributions aussi peu homogènes ? Les voix aptes à chanter Wagner existent, mais elles ne sont plus forcément à Bayreuth. En tout cas pas ensemble au même moment sur le plateau. Albert Dohmen a aujourd'hui 51 ans, Ben Heppner n'a toujours pas foulé la colline sacrée ; Wlaltraud Maier n'est pas là tous les ans, ni Peter Seiffert, et l'on attend avec impatience Eva-Maria Wesbroek. Les Maîtres chanteurs ont montré également l'étendue du talent de Michael Volle, étonnant Beckmesser, et la clarté du timbre du jeune Klaus Florian Vogt, mais aussi beaucoup de lacunes dans les autres rôles.

Aujourd'hui, la réputation hautement méritée du Festpielhauss repose sur la qualité des choeurs et de l'orchestre. Thielemann dans le
Crépuscule a montré une nouvelle fois la beauté du fondu sonore que procure la salle et provoqué, lors de la marche funèbre de Siegfried, une émotion que nulle formation ne peut donner actuellement. Dommage que la distribution vocale ne soit pas toujours à ce niveau.»

(mais) Uma Carmen?

Nancy Fabiola Herrera parece ser uma promissora gitana!

«(...) una Carmen de primera división, la mezzosoprano canaria Nancy Fabiola Herrera. Su soberbia interpretación de la célebre heroína disparó la temperatura lírica del montaje, pero no bastó para disimular las carencias de esta digna producción de la ópera Carmen de Bizet, con buenas ideas escénicas, pero con demasiados puntos negros.

Hay que seguir de cerca la carrera de Nancy Fabiola Herrera. La voz es de gran belleza, cálida, puro terciopelo, manejada con técnica impecable y fino sentido musical. Ve en Carmen la nobleza de una gitana que ama la libertad por encima de todo, y retrata su carácter con refinamiento, elegancia musical y temperamento, sin caer en la vulgaridad. Si añadimos que tiene encanto en escena y sabe meterse en la piel del personaje con eficacia teatral, tenemos el perfil de una Carmen que juega por méritos propios en la primera división de la escena lírica mundial.»



A seguir, de perto!

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

OS CLÁSSICOS DA ÓPERA - 400 ANOS: mais fascículos?

Oxalá o leitor do DN seja bafejado com a mesma sorte do fiel comprador do Le Monde!



Pois, a ser assim, a notável colecção OS CLÁSSICOS DA ÓPERA - 400 ANOS, em vez dos anunciados 25 fascículos, contará com mais 12, entre os quais figuram documentos absolutamente incontornáveis, nomeadamente, A Valquíria - de Furtwängler -, Tosca – de De Sabata -, O Rapto do Serralho – de Fricsay -, e Aida – de Erede.

Previstos, ainda, estão obras como Don Giovanni, A Dama de Espadas, Otello, Agrippina, O Morcego, Romeu e Julieta, A Italiana em Argel e O Elixir do Amor, cujos elencos e direcções desconheço, por ora.

Wozzeck (in DN, edição de 03.08.2007)



Eis a verdadeira identidade do Wozzeck - de Berg -, que esta semana integra a colecção OS CLÁSSICOS DA ÓPERA - 400 ANOS.

Do meu ponto de vista, trata-se de uma extraordinária interpretação, dirigida por Mitropoulos, no início da década de 1950. Se não estou em erro, é o primeiro registo discográfico da obra.

A não perder!

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Festival d'Aix IX - O Balanço



Eis o balanço do dito festival, nas palavras do actual director, Bernard Foccroulle:

«Certains vous accusent, comme ils accusaient votre prédécesseur, de dévoyer la ligne artistique du festival établie par Gabriel Dussurget, son fondateur, en programmant Janacek et Wagner ?

Mais pourquoi ? Parce que De la maison des morts, de Janacek ne serait pas suffisamment "léger" et "divertissant" ? Le festival demeure en grande partie ce que son fondateur avait imaginé : la musique ancienne, la musique contemporaine et celle de Mozart sont toujours présentes. Le Festival n'est pas coupé de ses racines, mais il évolue et s'ouvre à de nouveaux courants. Je veux développer les petites formes, inviter des productions, notamment venues d'Europe de l'Est, intensifier la politique de création : après Pascal Dusapin en 2008, nous accueillerons Luca Francesconi et George Benjamin, ou Saed Haddad, d'origine jordanienne. D'autre part, il me semble important d'ouvrir davantage le festival sur la Méditerranée et ses cultures musicales. L'année 2008, année européenne du dialogue interculturel, devrait nous inciter à faire preuve d'imagination.»

Disse-me um passarinho...

...que para breve, voltarão ao catálogo:





quarta-feira, 1 de agosto de 2007

La Callas, de Ponchielli

La Gioconda, de Amilcare Ponchielli, é uma ópera impregnada de aspectos ultra-românticas, com alguns laivos de verismo. À la grand opera français, há vozes para todos os registos – do soprano ao contralto, do tenor ao baixo -, ballet qb e coros omnipresentes.

Musicalmente, a ópera contém alguns aspectos interessantes, sendo que os mais destacados – nomeadamente a demanda de um soprano dramático di agilitá, potente, de voz ampla, com agudos certeiros e encorpados e graves majestosos - reenviam às características dos papeis da linha spinto; já em termos de trama, a peça é de uma inverosimilhança dificilmente suportável, bem ao jeito romântico!


A interpretação que ora comento de La Gioconda, do meu ponto de vista, contém pouco de recomendável, para além da magistral leitura d’A Callas, e da direcção de Votto – teatral e majestosa.

Apesar do elenco contar com nomes de grande peso da lírica italiana dos anos 1950, em boa verdade, os intérpretes proporcionam-nos leituras pouco interessantes.

A Laura de Barbieri é mais Azucena do que fêmea; Poggi compõe um Enzo lírico-ligeiro, em vez de verdadeiramente spinto e viril; Neri oferece-nos um Alvise banal e Silveri encarna um Barnaba muito superficial.

Quanto à Gioconda de Maria Callas… é digna de um tratado de interpretação!
O papel titular é de uma envergadura tremenda, relembrando Norma, ou Isolda. A todo o instante, requer-se uma alternância entre lirismo, agilidade e envergadura dramática.

Callas contava com escassos 29 anos, por ocasião desta gravação – a primeira oficial, de toda a sua carreira, captada em estúdio. Poucos anos antes – em 1947 -, estreara-se em Itália, na Arena di Verona, justamente com La Gioconda.

A composição da personagem revela um sentido dramático absolutamente impressionante, combinando vulnerabilidade, candura, ódio, abnegação e destrutividade.

A voz, olímpica, matiza infinitamente as facetas que a actriz explora. Desde logo, ressalta a imensa amplitude vocal, que cobre agudos pueris e luminosos, a par de graves imponente, escuros e profundos. A técnica (ainda) muito sólida, apenas deixava vislumbrar o eterno calcanhar-de-Aquiles de Maria Callas: a frágil sustentação dos agudos, dos pianissimi.

Chamo a atenção do leitor para a progressão dramática do último acto que a intérprete nos oferece, a tal ponto robusta e complexa que aniquila por completo as demais figuras!

Enfim, uma vez mais, Maria Callas insiste no seu cavalo-de-batalha: uma interpretação muito rica, altamente complexa, multifacetada, teatral, sem meias-tintas, nem compromissos, sem pudor, nem contenção. Com ela, as mulheres amam e odeiam, com as vísceras. A brutalidade é plenamente vivida, com pathos!
Foi por esta via que se tornou lendária e fez escola, pois em matéria de técnica, todos sabemos quão frágil era.

Posto isto, caro e paciente leitor, adquirir esta La Gioconda permitir-lhe-á privar com a interpretação total e absoluta do papel-titular, sem qualquer tipo de precauções!

Assumidamente desconhecendo outras leituras do papel, arrisco considerar a d’A Callas como definitiva.

Dir-me-ão…

(ainda e sempre) Teresa Stich-Randall

(mais) Audições Estivais



Uma interessantíssima interpretação de Vivaldi lírico.

Biondi dirige um elenco muito homogéneo, tão virtuoso, quanto lírico.

Obviamente, em Vivaldi, a bravura e a ornamentação levam a melhor, sacrificando-se o drama. Em todo o caso, estamos diante de um formalismo superlativamente servido!




Abbado na fase rossiniana, em que fez escola.

Esta peça - composta por ocasião da coroação de Carlos X, de França – mostra-nos um Rossini magnânimo, grandioso e feérico, ao estilo buffo.

Por Abbado – coeso e apoteótico -, Valentini-Terrani – dotada de graves magistrais e coloridos -, Araiza – luminoso, com agudos penetrantes e arrojados -, Ramey – soberbo na coloratura –, Dara – inigualável no humor - e… (o melhor de tudo…) Raimondi – heróico, buffo e imensamente teatral.

Esta gravação data de 1984, tendo sido captada ao vivo, em Pesaro, no Rossini Opera Festival - cuja XXVIII edição se inica a 8 de Agosto!