Numa época tão prolixa em maneirismo vocais e / ou dramáticos, eis um dos mais caricaturais exemplos:

Na lírica, o maneirismo nada mais é do que um plus, absolutamente gratuito, que o intérprete decide acrescentar - seja no tocante à decoração melódica (a não confundir com ornamentação ou coloratura), seja no que se refere à postura cénica. Trata-se, assim, de personalizar o que se interpreta, desvirtuando o texto e / a melodia, com o propósito puro e simples de brilhar.
A meu ver, trata-se de um exercício narcísico, inscrito num jogo de afirmação-de-si. Se quisermos, o maneirismo é um jogo de poder entre o intérprete e a obra, jogo esse em que o primeiro procura ofuscar e subvalorizar a dita obra, desvirtuando-a.
Ora, neste registo, Fleming surpreende, pela pior das razões.
Sucintamente, Renée Fleming mantém a sanidade vocal.
A voz - de uma beleza etérea -, cintila: o vibrato revela um controlo estupendo, de onde resulta uma pureza cristalina na emissão.
A leitura dramática, invariavelmente, é pobre, tanto mais que a grande maioria das árias aqui presentes provém de papéis que a artista nunca interpretou cenicamente. Para quem, já de si, revela dificuldade em enriquecer dramaticamente as personagens interpretadas. . .
A excepção a esta fragilidade é a Manon, que Fleming interpretou sobejamente em diferentes cenas líricas mundiais - Met e Bastille, além de outras. No caso desta personagem, Fleming é exímia, construíndo uma Manon arrebatada, frágil e dorida, com uma apreciável espessura dramática.
Bom, até aqui, nada de novo.
O pior deste registo reside, justamente, nos intermináveis maneirismos da artista, que a seu bel- prazer prolonga notas (altera outras!!!), acrescenta cadenzas, floreia e ornamente, sem revelar respeito algum pelas partituras - já para não mencionar os textos.