quinta-feira, 6 de julho de 2006

Wagner, Heppner, Siegmund & Siegfried


(DG 477 600 - 3)

Este magnífico registo mais não é do que a confirmação do óbvio: Heppner é o mais talentoso heldentenor do momento!

Ben Heppner, neste louvável trabalho, procura caracterizar duas personagens heróicas da tetralogia wagneriana: Siegfried e Siegmund, respectivamente, pai e filho.

A caracterização das personagens proposta pelo intérprete é notável, sobretudo pela vastidão do leque expressivo: heroicidade, valentia, força, virilidade, melancolia, tristeza, dor...

Fascina-me o lirismo e a bravura (não confundir com a acepção técnica do termo, que reenvia ao belcanto, sobretudo) de Heppner, a talentosa caracterização dramática, reveladora de um profundo conhecimento da psicologia wagneriana.

Se ao menos Thielemann tivesse escolhido o intérprete canadiano para o seu Tristão...

Wagner, Thielemann & Tristan und Isolde


(DG 474 974 - 2)

Thielemann oferece-nos, desta feita, a sua proposta interpretativa, no que se refere a Tristan und Isolde.

A respeito da sua recente leitura de Parsifal, questionei-me sobre a sua pertinência, em virtude da panóplia de diferentes interpretações desta mesma ópera.
Re-coloco a questão, agora a propósito de Tristão e Isolde.

À semelhança de Parsifal, em Tristan und Isolde, Thielemann opta (ou é forçado a optar, por imperativos financeiros!) pelo live.

Confesso a minha particular admiração pelas (incontornáveis) interpretações desta ópera, ao vivo.
De cor, cito Reiner (1936), Karajan (1951) e Böhm (1966 e 1971, esta última em dvd, com Vickers e Nilsson).

Ouso considerar que a direcção de Thielemann tem o seu fascínio, à semelhança das citadas leituras orquestrais.
O maestro apresenta uma proposta colorida, não muito dinâmica, insistindo na dimensão disfórica da partitura.

Sem artificialismos de estúdio, Thielemann extrai uma expressão nobre da Orchester der Wiener Staatsoper, cujas cordas bordejam a mais absoluta espiritualidade, tal não é a mestria e singularidade da sua execução!

Bem sei que ando obcecado com este naipe, desta mesma orquestra, mas o óptimo deve, imperativamente, ser referenciado e aclamado!

Vamos a solistas, o calcanhar-de-Aquiles deste trabalho...

Deborath Voigt, nesta interpretação, ousa o impensável: encarnar, pela primeira vez, a mais complexa personagem feminina wagneriana, num teatro lírico vedado às intérpretes americanas (no tocante ao papel de Isolda)!
Pode ser acusada de tudo, menos de ousada...

Se é verdade que cantar esta personagem exige endurance, folgo e uma tremenda resistência, interpretá-la requer, no mínimo, uma expressão trifacetada: orgulho (Narrativa, acto I), erotização (dueto, acto II) e sensibilidade - leia-se submissão - à ansiedade de perda (acto III).

Isolda é um soprano dramático, navegando num território onde se cruzam ferida narcísica - perda e erotização.

Voigt, nesta interpretação, compõe uma Isolda surpreendente, dada a flutuação da personagem: exímia na Narrativa (por ser maravilhosamente altaneira), frustrante no dueto com Tristão (sem sombra de desejo expresso) e soberba no derradeiro acto (de uma elevadíssima sensibilidade à dor da perda).

A esta pessoal composição, acresce uma emissão parasitada por um vibrato dificilmente controlável... e tolerável!

Desde a Ariadne auf Naxos (Sinopoli) que a voz de Voigt vem acusando esta crescente fragilidade. Que pena, dada a beleza do timbre, sensual e nobre!

Curiosamente, nas gravações mais recentes desta ópera - Pappano 2004, nomeadamente - encontro duas linhas comuns: o vibrato das protagonistas - sendo que o de Stemme, além de mais controlado, é mais rico - e a desadequação das Brangänes!

Petra Lang, à semelhança de Fujimura, além de possuir uma voz feia, de timbre grosseiro, não revela nobreza alguma, muito menos cumplicidade com a heroína.

Voigt é ladeada por Thomas Moser, Tristão debutante.

Moser canta um herói pouco expressivo, sob uma capa demasiadamente baritonal. Monolítico, o intérprete respeita a partitura, sendo incapaz de modular a voz às inúmeras solicitações interpretativas: sem desejo, sem dor, sem valentia...

Embora sem grande brilho, apreciei as prestações de Holl (Rei Marke) e Weber (Kurwenal).
Cumprem, destacando-se Peter Weber, cujo Kurwenal revela densidade e robustez dramática. Facilmente se imagina a intimidade mantida com o herói (não com o intérprete do mesmo...).

Posto isto, caro leitor, tal como havia considerado, a respeito do Parsifal, de C. Thielemann, a grande virtude deste Tristão assenta, sem sombra de dúvida, numa leitura orquestral que respira e brilha.

Quanto aos intérpretes solistas, diria que havendo muitos melhores, vocal e dramaticamente, no essencial, oferecem leituras genuínas e autênticas, apesar da heterogeneidade reinante e das fragilidades já elencadas.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

O Ouro do Reno, em Aix...



...a bem da pluralidade, eis a opinião (seguramente menos passional) do The New York Times.

Lorraine Hunt Lieberson (1954 - 2006)



R.I.P.

Compreensivelmente, a imprensa americana tece um rasgado elogio, em clima de inegável idealização, à mezzo americana...

Festival d´Aix...

Clivagens: o mau ("A Flauta Mágica") e o bom ("O Ouro do Reno"), de acordo com o Libération.

A propósito da encenação desta última ópera, a dada altura diz-se:

"Pour Stéphane Braunschweig, le Ring parle de l' «incompatibilité de l'amour et du pouvoir» et, reprenant la distinction freudienne, de la difficulté d'articuler «principe de plaisir et principe de réalité»."

Partilho da primeira incompatibilidade; discordo da segunda.
A lógica d´O Anel, numa (possível) perspectiva psicológica, radica na luta entre omnipotência-megalomania e objectalidade: algures entre o amor objectal (pelo outro, o objecto) e o desejo narcísico (imensamente grande) de poder absoluto; sem compromissos possíveis, muito aquem da conflitualidade...

Mozart & Terfel... ou disse-me um passarinho...

Novas, novas!!!


O Mago da lírica, sob a batuta de Mackerras, relançou-se na mozartiana...
Um registo integralmente dedicado à ópera mozartiana, aparentemente muito além do mainstream!
(aguardo com particular entusiasmo a encarnação do Conde, d´As Bodas de Figaro !)

Em Outubro próximo, Dissoluto Punito será, seguramente, um dos primeiros a adquirir esta promissora pérola :-)))

Para mais detalhes audio deste produto, clicar aqui.

Para informações comerciais deste registo, clicar aqui.

Especialmente para si, fiel e paciente leitor, eis a track list deste cd:

1. Recitativo e N. 10 Aria: "Ehi, capitano, a me pure la mano" - "Non più andrai, farfallone amoroso" (Figaro)
from: Le nozze di Figaro

2. "Io ti lascio, oh cara, addio" K. Anh. 245 (621a)
3. N. 10 Terzettino: "Soave sia il vento" (Fiordiligi, Dorabella, Don Alfonso)
from: Così fan tutte
with Miah Persson (Fiordiligi) · Christine Rice (Dorabella)

4. »Männer suchen stets zu naschen« K. 433 (416c)
(completed by Rudolf Moser)

5. Recitativo ed Aria: "Così dunque tradisci" - "Aspri rimorsi atroci" K. 432 (421a)
6. Recitativo e N. 23 Duetto: ?V?adoro? - "Il core vi dono" (Guglielmo, Dorabella)
from: Così fan tutte
with Christine Rice (Dorabella)

7. Arietta: "Un bacio di mano" K. 541
8. Recitativo e N. 7 Duettino: "Quel casinetto è mio" - "Là ci darem la mano"
(Don Giovanni, Zerlina)
from: Don Giovanni
with Miah Persson (Zerlina)

9. Nr. 20 Arie: »Ein Mädchen oder Weibchen wünscht Papageno sich« (Papageno)
from: Die Zauberflöte

10. N. 18 Recitativo ed Aria: "Hai già vinta la causa!" - "Vedrò, mentr?io sospiro" (Conte)
from: Le nozze di Figaro

11. Duett: »Nun, liebes Weibchen, ziehst mit mir« K. 625 (592a)
(composed by Benedikt E. Schack, instrumentation by Mozart)
with Miah Persson

12. Nr. 2 Arie: »Der Vogelfänger bin ich ja« (Papageno)
from: Die Zauberflöte

13. N. 17 Duettino: "Crudel! perché finora farmi languir così?" (Conte, Susanna)
from: Le nozze di Figaro
with Miah Persson (Susanna)

14. N. 16 Canzonetta: "Deh! Vieni alla finestra, o mio tesoro!" (Don Giovanni)
from: Don Giovanni

15. Arie Nr. 10: »Diggi, daggi, schurry, murry« (Colas)
from: Bastien und Bastienne

16. Nr. 21 Finale (Auszug): »Pa-Pa-Pa-Pa-Pa-Pa-Papagena!« (Papageno, Papagena)
from: Die Zauberflöte
with Miah Persson (Papagena)

17. Recitativo e N. 4 Aria: "Guardate! Questo non picciol libro" - "Madamina, il catalogo è questo" (Leporello)
from: Don Giovanni

18. Nr. 7 Duett: »Bei Männern, welche Liebe fühlen« (Pamina, Papageno)
from: Die Zauberflöte
with Miah Persson (Pamina)

19. N. 27 Recitativo ed Aria: "Tutto è disposto" - "Aprite un po? quegli occhi" (Figaro)
from: Le nozze di Figaro


(DG 477 588-6 )

sexta-feira, 30 de junho de 2006

J. Norman e a Omnipotência ou la reprise des vignetes cliniques

A omnipotência constitui uma das mais esplendorosas defesas narcísicas.

Face à angústia de perda, no sentido mais lato, defensivamente, o sujeito ergue uma carapaça pincelada de um poder pretensamente absoluto.



Eis Jessie Norman, diva incontestada de outrora, negando as evidências: o declínio vocal, sobretudo.

Qual toute-puissante, a intérprete persiste em apresentar-se como nos tempos áureos: cabeça de cartaz, forever...

Norman, assim, nega a finitude, o ciclo de vida, a decadência...

Se quisermos, esta defesa - que atesta da falta de limites, e mais não digo... - constitui uma forma de luta tenaz contra a depressão...

L. Rysanek (ou A.Silja...), por exemplo, soube assumir a decadência: passou a mezzo, encarnando figuras aquem das prime-donne. Porém, o frágil narcisismo de Norman - cego e muito, muito frágil - nega o que para todos nós é evidente.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Parsifal, por Thielemann:

Kna está para Parsifal como Giulini para Don Giovanni.
Absolutamente incontornáveis, as duas leituras dos maestros constituem modelos: a veia pueril do primeiro e o brilho do segundo (na interpretação das respectivas óperas) provam-nos que, também na leitura musical, a metafísica e a transcendência não são miragens...

Vem esta prosa a propósito de uma recentíssima interpretação de Parsifal, que muita tinta fará correr.

Pese embora a minha incondicional admiração pelas duas leituras de Kna, de Parsifal - TELDEC 1951 e PHILIPS 1962 -, a bem da diversidade estética e da liberdade interpretativa, procuro incessantemente alternativas.

É assim que, no que à mencionada ópera de Wagner concerne, vou adicionando outras interpretações - Boulez, Barenboim e Von Karajan, por exemplo.
Procuro, assim, insurgir-me contra a idealização e o monolitismo!

Perguntará o leitor mais exigente se existe espaço para mais uma interpretação de Parsifal... Creio que sim, sem hesitar, sobretudo se se tratar da proposta de Thieleman.



A meu ver, a glória desta recente proposta radica na parelha Thielemann / Orchester der Wiener Staatsoper, em Domingo e Meier.

A leitura orquestral proporcionada pela Staatsoper de Viena é inegavelmente poética: ora diáfana e pueril, ora robusta e soleníssima, a orquestra movimenta-se com igual à vontade no recolhimento e na exaltação mística
Devo ainda destacar, neste âmbito, o genial labor das cordas - porventura as melhores do mundo... -, delicadas, majestosas e com um nível de afinação primoroso!

Domingo - que aqui interpreta o papel titular, uma vez mais - quis apagar a medíocre prestação dos mid-90´s, sob a batuta de Levine (também na casa DG): o alemão é agora mais aberto, cuidado, firme e seguro.

É verdade que o tenor insiste no arrebatamento... A envergadura vocal mantém-se inabalável, com folgo e pujança a rodos! Primoroso na exaltação e na expressão do êxtase, Domingo revela-se menos eficaz no lirismo - i.e., no lado mais pueril do herói -, pois Parsifal, apesar de inegavelmente heróico, é também inocente e casto... Há que recordá-lo!

W. Meier é a última grande Kundry da história; prova-o esta soberana interpretação. Apesar de negligenciar o lado erótico e sedutor da personagem, a Kundry desta intérprete é particularmente expressiva no domínio da insanidade, indo muito mais longe do que, por exemplo, Mödl, cuja louca Kundry (Kna´1951) atormentava o maior dos afoitos!

Como ilustração artística destas minhas considerações, destacaria, caro leitor, o final do segundo acto.

A prestação do casal Parsifal - Kundry, nesta fase da trama, é mítica: ambos ilustram com indesmentível mestria o debate entre carne e espírito.
Doravante, ela deprime-se, entregando-se à melancolia; ele faz uma magistral pirueta maníaca, tornando-se num salvador asceta, convicto e singular.

Acrescentaria duas palavras, antes de terminar, a propósito de Amfortas e Gurnemanz.
Ambas as interpretações padecem de uma relativa fragilidade artística: enquanto o Amfortas de Struckmann se revela algo translúcido, dramaticamente, o Gurmenaz de Selig padece de falta de heroicidade e autoridade. Quanto ao Klingsor de Bankl, diria que cumpre a sua missão, com relativa eficácia, sem contudo se destacar.

Posto isto, caro e fiel leitor, recomendo esta interpretação aos heterodoxos e, muito particularmente, aos amantes da orquestra da Ópera de Viena.

domingo, 25 de junho de 2006

Die Meisterspieler von Nürnberg*

Walter von Stolzing triunfou...


...sob a sábia orientação de Hans Sachs, claro está!


*Os Mestres-Jogadores de Nuremberga

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Demais Interesses xyz



Perco-me na leitura d´O Aleph.
Procuro, em vão - por ora -, a saída do tortuoso labirinto...
Lancei-me na teia.
Temo o encontro com o Minotauro; receio a tenacidade da aranha...

Entretanto, deslumbro-me no / com o singularíssimo universo borgeano.

Termino O Aleph, sem contudo ter lido o conto homónimo.

Novas Aquisições!!!

Uma das manifestações clínicas da mania é, justamente, o gasto demedido de dinheiro em compras...

Eis algumas das aquisições musicais secundárias ao meu furor maníaco :-)))

quarta-feira, 21 de junho de 2006

As Cordas de Viena (Wiener Staatsoper)...

...são as mais magníficas que conheço (ainda mais belas que as Contas-de-Viana, que tanto embelezam a minha mulher, já de si belíssssssssima)!

Exemplos? Oiçam o Parsifal de Thielemann!!!
Mais argumentos pro Thielemann´s Parsifal? Por ordem de relevância: Thielemann lui-même, Domingo & Meier, claro está!



ps logo que possível, explico por que razão não dispenso esta bela interpretação!
Sim, bem sei, bem sei : Kna´51 e ´62 são monumentais...

terça-feira, 20 de junho de 2006

Do Fundo-de-Catálogo...

... da EMI, decidiram revitalizar maravilhas como esta, esta, esta, esta, esta e... ESTA (a cereja-em-cima-do-bolo!).

But, the best is yet to come: tudo, tudinho a mid-price!!!

Ain´t that greaaaaaaat???

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Recomendações Curtas - I


(DG 439 896-2)

Pela batuta de Boulez, eis um Debussy além do sensorial e aquém do figurativo / representativo: as impressões sugerem, evocam...

A música, sem contornos, é um continuo: fluida, discorre, algures entre a impressão e o etéreo.

Alta...


Após uma curta convalescença psiquiátrica, Dissoluto Punito regressa recomposto (?)...
Ver-se-á...

sábado, 10 de junho de 2006

Baixa...


Dissoluto Punito & Família, vencidos pela fadiga extrema, ausentam-se até 19 do corrente.
Incapaz de tecer considerações sobre O Ouro do Reno e Mattila´s performance, Punito Dissoluto regressará à sua nobre tarefa, finda a baixa.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Recital de Karita Mattila, F. C. Gulbenkian, 9 de Junho, 19:00 h

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Se és jovem de espírito, ousado, aventureiro e gostas de loiras, junta-te aos bons e serás como eles !

Amanhã, dia 9 de Junho, a mais incandescente loira lírica finlandesa ? Karita Mattila - apresenta-se em recital, na F. C. Gulbenkian, pelas 19:00h.

Se estás interessado num bilhete de segunda plateia, com uma redução de 30%, e te agrada a ideia da companhia de Il Dissoluto Punito e respectiva mulher, contacta-me para o 967 620 170, ou deixa contacto ;-)

quarta-feira, 7 de junho de 2006

A Paternidade e suas vicissitudes...

Vicissitudes da paternidade têm mantido o meu pai distante da blogosfera...
Creio que ele voltará "à carga", muito em breve...


(Dissoluto Punito Jr debutando na Feira do Livro de Lisboa)

quinta-feira, 1 de junho de 2006