sábado, 25 de março de 2006

Alagna: bravo, bravo!


Roberto Alagna é capaz de mostrar a sua genialidade, sempre que explora o seu repertório específico!
Bravo, Cyrano!

TERFEL & Offenbach

Esta noite, pelas 20:50h, no canal MEZZO (hora local), oportunidade rara de assistir a esta récita de Os Contos de Hoffmann, de J. Offenbach.



Não sou um apreciador particular deste tipo de repertório. Acresce a esta circunstância a má recepção desta produção, tanto pela crítica, como pelo público da Bastilha...

A razão da sinalização da efeméride? A presença de TERFEL na pela dos quatro vilões!

DECCA: o Império contra-ataca...

Depois de a DG se entregar a reabilitações de fundo-de-catálogo, é agora a vez de a DECCA/PHILIPS se lançar em semelhante empresa.

Gratos ficamos nós, os apreciadores de música, que tanto lutamos por aceder aos fundos-de-catálogo das grandes editoras!

Eis uma pequena amostra das referências obrigatórias, a meu ver, claro está (para felicidade minha, salvo uma ou outra excepção, tinha-as quase todas!)



Aproveitem a maré que aí vem!
(para aceder à lista completa, clicar aqui
)

sexta-feira, 24 de março de 2006

REALMENTE!

Procurando um lugar de destaque - quase invariavelmente detido (em exclusivo) pelo imenso Liceu -, o madrileno Teatro Real lança-se noutras aventuras, na próxima temporada.

quinta-feira, 23 de março de 2006

Don Giovanni: o Retorno do Recalcado

O material recalcado (felizmente) tende a regressar à consciência, de forma disfarçado: via sonhos e actos falhados, o mor das vezes...

Desta feita, vieram-me à consciência representações bastante explícitas de uma experiência assaz traumática: a perda do mítico Don Giovanni, comemorativo dos 50 anos de vida do Lyric Opera of Chicago.
Ei-las!!


(Terfel, Il Dissoluto Assoluto)

(Graham, Elvirissima, Mattila, Annnnnnnnnnissima...)

[Kundry, terapeuticamente, procedeu ao levantamento de recalcado...]

quarta-feira, 22 de março de 2006

Met Opera House: Ansiedade de Castração

O rocambolesco acidente que vitimou James Levine, impedindo-o de dirigir, untill the end of the present season, criou no Met um clima de impotência, semelhante à ansiedade de castração, tal como Freud a definiu: é como se o monstro Met - no melhor dos sentidos - se encontrasse privado de um apêndice, circunstância que o torna algo inapto (apesar de a sua identidade se encontrar preservada, sublinhe-se)!

Ainda assim, parece que a divina Mattila (re)triunfou! Apesar da ausência do apêndice-Levine, a coisa brilhou!

Estive prestes a ir assistir a esta reprise, mas por vicissitudes da paternidade, tal não aconteceu!



Em todo o caso, para os sequiosos, aqui vai uma oportunidade de assistir a esta aclamada - exagero do crítico... - produção de Fidelio, por escassos 30 euros (em alternativa, a 14,99 euros!!)

"Ms. Mattila dominates, as any great Leonore must. She holds back nothing, leaping on and off tables, climbing up bars on prison cells hoping to discover her husband. When Fidelio brings in bags of food supplies he has been sent for, Ms. Mattila, utterly in character, eats an entire banana right before singing her arching lines in the great quartet. When she confronts Pizarro in the climactic scene, her voice shimmers with defiance and intensity. At the end, when the freed prisoners lift Leonore to their shoulders and carry her around the square, you wanted to leap on stage and join the celebration."

Mozart heterodoxo...

Algumas liberdades na encenação comportam riscos!

segunda-feira, 20 de março de 2006

Da Ópera Americana...

Glass, Thomsosn, Menotti, Adamo, Heggie, Previn, Danielpour e Corigliano!!

Eis uma escassa amostra de compositores americanos que criam ópera (entre outro tipo de peças musicais).

Polémicos e controversos - alguns demasiado pop, aos olhos da elite europeia possidónia e intelectualóide -, a verdade é que, no Velho Continente, não há movimento de criação que chegue aos calcanhares do citado grupo!

Desafio o leitor a elencar os compositores europeus de ópera, cujas obras figurem em teatros líricos!!!

Dizia eu, ontem, que as salas americanas de ópera se encontram na dianteira, em matéria de elencos...
Mal havia eu tomado consciência da dimensão da criação lírica do / no Novo Continente...

A propósito da ultra-dinâmica americana, no que se refere ao universo da lírica, sugiro este interessante artigo do New York Times.

São Carlos vanguardista???

Diz-nos VELA DEL CAMPO (El PAIS), a propósito de Il Dissoluto Assolto, Santa Susanna e Erwartung, em estreia no nosso Teatro Nacional de S. Carlos:

«Hay teatros de ópera donde continuamente "pasan cosas". El de São Carlos de Lisboa es uno de ellos. Con un presupuesto modestísimo se ha situado en lo que va de siglo, gracias a la imaginación y audacia de su director Paolo Pinamonti.» (clicar aqui, para aceder ao resto da notícia)

Não é todos os dias que o TNSC colhe elogios desta espécie, figirando (quase) entre os teatros de ópera mais vanguardistas! :-)

Que tal uma saltada ao São Carlos?

domingo, 19 de março de 2006

LYRIC OPERA OF CHICAGO...

O excelente nível dos elencos dos teatros líricos norte-americanos ? vide Met e, muito particularmente, LYRIC OPERA OF CHICAGO ? reforçam uma convicção pessoal de há muito: a lírica americana será o epicentro do fenómeno operático do século XXI.

Sejamos realistas: além dos notáveis (ainda que dispersos) fenómenos de música barroca - que têm lugar em França, sobretudo - e das programações de ópera de Paris e de Londres (Milão, já era, tal como Viena e Salzburgo), pouco mais há a destacar, no que se refere à qualidade da lírica no velho continente.

Depois da nova-iorquina Met e da californiana Opera de S. Francisco, CHICAGO afirma-se como um dos vértices da música lírica americana e ? assumamo-lo, sem rodeios ? mundial.

sexta-feira, 17 de março de 2006

ENO...

Novas: compromissos entre o musical e o lírico puro, na English National Opera.

Norah Amsellem: a seguir de perto










Eis uma das novas estrelas lirico-spinto!
Segundo reza a crónica, é triunfal (parece que a Gheorghiou ficou a odiá-la, tal não era o talento da jovem francesa...)!


E esta?

Para a temporada 2009-2010, a cereja em cima do bolo é...

Tosca will feature Karita Mattila singing the title role for the first time at The Met, Marcelo Álvarez as Cavaradossi, and Bryn Terfel as Scarpia

Melhor do que isto, não pode haver :-)))

Quem elenca assim, não é gago!

Ildar Abdrazakov (Faust), Carlos Alvarez (Rigoletto), Olga Borodina (Don Carlo and Gioconda), Johan Botha (Meistersinger), Dwayne Croft (Butterfly), José Cura (Tosca), Diana Damrau (Barbiere and Helena), David Daniels (Cesare), Plácido Domingo (First Emperor), Renée Fleming (Onegin), Juan Diego Flórez (Barbiere), Ferruccio Furlanetto (Boccanegra), Cristina Gallardo- Domâs (Butterfly), Angela Gheorghiu (Boccanegra), Marcello Giordani (Butterfly, Bohème and Tosca), Andrea Gruber (Tosca and Turandot), Maria Guleghina (Cavalleria), Nathan Gunn (Zauberflöte), Thomas Hampson (Boccanegra), Ben Heppner (Chénier and Idomeneo), Hei-Kyung Hong (Traviata and Turandot), Dmitri Hvorostovsky (Don Carlo and Onegin), Jonas Kaufmann (Traviata and Zauberflöte), Salvatore Licitra (Pagliacci and Tabarro), Lorraine Hunt Lieberson (Orfeo), Peter Mattei (Barbiere), Karita Mattila (Jenufa), James Morris (Meistersinger), Anna Netrebko (Puritani and Bohème), René Pape (Don Carlo), Patricia Racette (Pagliacci and Don Carlo), Dorothea Röschmann (Idomeneo), Ruth Ann Swenson (Faust and Cesare), Violeta Urmana (Chénier and Gioconda), Ramón Vargas (Faust and Onegin), Rolando Villazón (Bohème), Deborah Voigt (Helena), and Dolora Zajick (Cavalleria).

Nada mais, nada menos que uma amostra do elenco que assegurará a temporada 2006 - 2007 da minha sala de ópera!

(a vermelho, os GRANDES

EM GRANDE, OS MAIORES)

quinta-feira, 16 de março de 2006

Pavarotti: live (or dead?) in Lisbon, a 1 de Abril


Acredite o leitor, se assim o entender, que a primeira vez que deparei com um cartaz alusivo a esta desgraça, em lugar de 21 de Abril, apenas pude ler 1 de Abril, dado que o 2 estava ausente!

Pense, cogitei, meditei e reflecti:

1. Será um lapso, à la Freud, revelador do meu mais profundo desejo, sabiamente reprimido - leia-se recalcado -, de remeter esta inominável notícia para as calendas da mentira?

2. Será que o tenor siciliano pretende fazer uma incursão no repertório dramático, levando ao extremo a sua encarnação, à la Wagner, perecendo em palco?

3. Será que, à semelhança do que por cá se passa, a Caixa Nacional de Aposentações italiana se encontra falida, obrigando os idosos retirados a fazerem-se à estrada, dando o corpinho ao manifesto, à la Segurança Social do Burkinafaso (leia-se, "Não há reformas pra ninguém!!! Queres reforma? Trabalha! Mostra do que és capaz!")?

4. (e última: reflexão) Será que Luciano Pavarotti se move pela inveja, pretendendo arredar dos palcos circenses António Calvário, ocupando-os em grande estilo italiano?

No more words... (antevisão de uma tragicomédia)

quarta-feira, 15 de março de 2006

Da sofreguidão e da ganância

Ainda os restos terrenos de la Nilsson clamava por repouso, já os senhores da yellow lab se moviam, sofregamente, no intuito de rentabilizarem o ocaso da grande cantora, convertendo o seu desaparecimento em vil metal.

Não é caso raro, diga-se (vide o caso Callas, que todos os anos, por altura do Natal, leva a EMI fazer operações vergonhosas de maquilhagem sobre colectâneas de árias reunidas desde há décadas, como se tal correspondesse a um produto original!!! Pasme-se!!!)



[Eis a track list deste artigo:


Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791)
Don Giovanni, ossia Il dissoluto punito, K.527
1
"Or sai chi l'onore"
2
"Crudele!-Ah no, mio bene!" - "Non mi dir, bell'idol" (Donna Anna)
Birgit Nilsson, Orchestre du Théatre National de Prague, Karl Böhm

Carl Maria von Weber (1786 - 1826)
Oberon
3
Rezitativ und Arie: "Ozean, du Ungeheuer!"
4
Kavatine: "Trauere, mein Herz"
Birgit Nilsson, Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks, Rafael Kubelik

Ludwig van Beethoven (1770 - 1827)
5
Ah perfido!, Op.65
Birgit Nilsson, Vienna Symphony Orchestra, Ferdinand Leitner

Richard Wagner (1813 - 1883)
Tannhäuser
6
"Dich, teure Halle, grüß ich wieder"
7
"Allmächt'ge Jungfrau, hör mein Flehen!"
Birgit Nilsson, Orchester der Deutschen Oper Berlin, Otto Gerdes

Tristan und Isolde
8
"Mild und leise wie er lächelt" (Isoldes Liebestod) (Isolde)
Birgit Nilsson, Orchester der Bayreuther Festspiele, Karl Böhm

Richard Strauss (1864 - 1949)
Salome, Op.54
9
"Ah! Du wolltest mich nicht deinen Mund"
Birgit Nilsson, Metropolitan Opera Orchestra, Karl Böhm]


Vil e dispensável é o registo que ora propõem da dita cuja, sob o manto falaciosos da homenagem!
E por quê?

La Nilsson nunca foi uma mozartiana, para começo de conversa!

La Nilsson gravou os seus melhores registos até meados da década de 1960. Ora, os excertos que este disco reúne são de uma fase claramente menos interessantes da carreira de Birgit Nilsson, dado que datam de um período compreendido entre 1969 e 1971.

La Nilsson nunca foi uma Elisabeth de referência, muito menos uma Vénus (Tannhhäuser)!

A razão de ser desta pretensa colectânea corresponde, apenas e só - em minha opinião -, aos únicos registos da intérprete sueca de que a DG dispõe, voilà!

O resto é treta!

Caso o leitor pretenda dispor de um vasto leque de registos - de elevada qualidade técnica - desta grande figura da lírica, sugiro-lhe esta lista, da minha autoria.

segunda-feira, 13 de março de 2006

Slobodan Milosevic: suicídio e narcisismo

O suicídio tem a particularidade de convocar enfoques mil, do ponto de vista estritamente psicológico.

Corolário da melancolia - expressão major da ansiedade de perda -, o suicídio é, também, inquestionavelmente a manifestação absoluta da revolta pela não-revolta, como bem frisa António Coimbra de Matos, um dos meus mestres.

Pela parte que me toca, encaro-o na sua vertente mais narcísica, enquanto manifestação magna da omnipotência.



A morte de Slobodan Milosevic, ao que tudo indica, resultou de um acto deliberado do próprio, com o intuito expresso de pôr termo à vida.

Habituado ao poder quase-absoluto, triunfal, Slobodan, com este gesto, torna-se autor do seu próprio destino, fixando o termo da sua existência.

O seu gesto é, pois, de um triunfalismo absoluto, decorrente de uma prepotência magnânima: escapa a tudo e todos, o mesmo é dizer à justiça dos humanos...



[Pode ser que outros déspotas lhe sigam o exemplo... Alguém ouviu falar de Augusto Pinochet?]

Fado: para além dos estereótipos

Cristina Branco e Mariza questionam os estereótipos construídos em torno do FADO.
A ler, no New York Times.

Der Ring: itinerâncias

Gergiev, na companhia do seu Marinsky (qual globetrotter) passeia-se pelo muno inteiro, para exibir a sua aclamada produção de Der Ring.

Depois da América, da Coreia - e de outros felizardos -, agora é a vez de Cardiff.

Há gente com sorte...

Nós por cá, ficamos com uma ópera do dito ciclo por temporada - digo eu -, partindo do princípio que a programação das futuras temporadas dará continuidade ao O Ouro do Reno...

Veremos se assim é.

Expressões d´a Falha (III)


(Virgin Classics 0946 344733 2 3)

Dissoluto Punito, algures entre a perda e a excitação, prossegue o seu labor de luto.

Desta feita, o alvo das suas considerações é Rolando Villazón, il tenorissimo (os epítetos valem o que valem...)

O seu derradeiro registo é altamente projectivo, dado que espelha o seu funcionamento psíquico predominante: a hipomania.

Villazón canta, apenas, em italiano, francês, alemão e russo... Rien que ça...
Paralelamente, aborda um ínfimo repertório: do belcanto (Donizetti), ao verismo (Puccini, Mascagni e Giordano), passando por Verdi, Bizet, Offenbach, Flotow, Strauss e Tchaikovsky... Coisa pouca!

Enfim...

Bom, a verdade é que o tenor mexicano tem uma belíssima voz lírica, quente, cativante e envolvente, capaz de uma notável expressividade (quando está para aí virado!).

Estas considerações são tanto mais verdadeiras quanto o senhor em causa for capaz de se manter fiel ao domínio puramente lírico, abstendo-se de incursões verdianas e veristas, de pendor mais dramático, domínio que lhe escapa, tanto vocalmente - a voz não tem, nem robustez, nem resistência -, como em termos interpretativos - Villazón será um comediante convicto, porventura um declamador de emoções, mas nunca um actor dramático mais pesado!

A meu ver, o erro crasso deste cd radica na pretensa omnipotência do intérprete, que tudo quer abordar, sem atender às suas limitações vocais e interpretativas (confesso que, dada a extensão e variedade dos autores abordados, não me teria surpreendido ouvir o tenor cantar Berg ou Wagner...)!!!

Dito isto, se é verdade que o timbre conquista, não menos verdade é que, no caso deste registo, a Falha se expõe, sem pudor algum: homogeneidade e superficialidade das caracterizações (pouco ricas e diversificadas, apenas brilhantes no domínio puramente lírico - Hoffman e D. José).

Atrever-me-ia a considerar que, caso este intérprete tenha juízo, ocupará no repertório de tenor lírico (sobretudo italiano) a posição cimeira que Flórez - tenor assumidamente ligeiro - detém no belcanto.

Villazón será, sem sombra de dúvida, um notável Hoffman, um convincente D. José, eventualmente um interessante Carlo (Don Carlo, de Verdi), um Alfredo arrebatado, quanto ao resto, mantenho a minha prudência...

O percurso ditado pelo star-system, em que o intérprete deslumbradíssimo participa - diga-se! -, recorda-me uma tirada célebre e sábia do Grande Alfredo Kraus, senhor de um estilo e disciplinas raríssimos: "Não faltam talentos! O que faltam são Mestres, que disciplinem os talentos!"

Anseio por que Villazón invista num repertório mais específico, conforme às suas potencialidade - à la Kraus, que apenas cantava cerca de 12 papeis, consciente que estava dos seus efectivos dotes -, opção que, no meu modesto entender, dele fará um lendário intérprete.