quinta-feira, 9 de março de 2006

Eduardo Lourenço: o Ocaso do Paradigma Laico

Extraordinária e singela, a visão do mundo contemporâneo pelo grande ensaísta português.
A ler, em castelhano, aqui.
Palavra do Senhor...

quarta-feira, 8 de março de 2006

Novas da ENO

A English National Opera conta com um novo director musical, de sua graça E. Gardner, de 31 anos de idade.

Pergunto-me se terá o génio de (John Eliot) GardIner (um dos meus mestres)?
Para tal, aparentemente, apenas lhe falta o I...

A Flauta de Abbado



Tenho por Claudio ABBADO uma desmesurada admiração, sobretudo quando interpreta o repertório do final do Romantismo em diante.

Acho-o absolutamente admirável em Mahler, Debussy, Ravel e Berg, por exemplo. Em Strauss, manifesto as minhas reservas. Quanto a Mozart... sempre me decepcionou!

No caso específico do último compositor, no meu modesto entender, o problema, invariavelmente, radica na escolha de intérpretes desadequados, face ao repertório lírico mozartiano. Sylvia McNair, Cheryl Studer, Lucio Gallo, C. Remegio, S. Keenlyside, entre outros, não são intérpretes mozartianos!

Ora, vem esta prosa inicial a propósito de uma estreia de Abbado, em matéria de lírica mozartiana: acaba de gravar, para a DG, A Flauta Mágica!!!

Numa rápida passagem pela distribuição, destacaria a presença de dois pesos pesados da lírica, particularmente felizes na interpretação de papeis deste compositor: René Pape e Dorothea Röschmann...

Sem grandes entusiasmos, aguardarei pacientemente.

Entretanto, aqui podem ouvir-se alguns excertos desta interpretação.

Expressões d´a Falha (I)


(DECCA 452 602-2)

Este registo é a expressão da falha, na sua acepção mais narcísica: marca da incompletude, da imperfeição e da finitude.

Fleming aborda, aqui, um dos compositores mais queridos e destacados dos primórdios da sua notável carreira lírica: Mozart.

René Fleming sempre foi uma mozartiana de mão cheia.
A sua voz imensamente lírica, radiosa e luminosa até ao âmago, possui um timbre de uma indiscutível elegância e graciosidade; a técnica segue a graça da emissão, suportando-a com uma perfeição diplomática: omnipresente mas diáfana, eficaz mas invisível, materializa o brilho vocal, como se não existisse, et pourtant, elle est toujours là!

O temperamento cénico da Fleming combina com Mozart, sobretudo no tocante às personagens puramente líricas - Susanna, Pamina e Donna Elvira (qualquer delas abordadas neste registo) -, cuja expressão dramática é soft e algo esbatida, diluindo-se numa emissão que se pretende delicada, suave, elegante e contida.

Dito isto, a soprano americana marca pontos na abordagem das ditas figuras, revelando-se uma hábil e cautelosa cultora e difusora do estilo mozartiano lírico mais ortodoxo. Ainda assim, é legitimo destacar-se alguma falta de densidade interpretativa... Por exemplo, Pamina tem um quê de melancólico que escapa à diva; Susanna é mais ágil e espontânea do que a personagem ora retratada.

Hélas, la Fleming não resiste a outros voos, nomeadamente por territórios da linha coloratura, algo avessos aos seus dotes, que consubstanciam o calcanhar-de-Aquiles deste registo.

Esquivando-se a Donna Anna - que mais tarde abordará, pelas mãos de Solti e Levine, sem grande brilho, sublinhe-se -, não aguenta a "pirotecnia", nomeadament de Konstanze (para não falar da dificilmente tolerável inabilidade da sua Fortuna, de Il Sogno di Scipione), cuja flexibilidade e capacidade de ornamentação, manifestamente, René Fleming não possui.

De facto, as árias ornamentadas, precisamente nas passagens mais agudas, revelam uma voz em esforço, claramente menos dominada, sendo que o brilho e luminosidade cedem lugar a uma perturbadora aspereza e acidez.

Em duas palavras, a falha está presente num repertório excessivamente eclético, em termos técnicos, que René Fleming não pode abranger, por limites vocais incontornáveis.

Anos mais tarde, esta soprano percebeu, inteligentemente, que o seu temperamento e dotes vocais combinavam, em absoluto, com a figura da Condessa, papel em que, ainda hoje, quase dez anos volvidos sobre as míticas Nozze do Met - que a juntaram a Terfel e Bartoli - não tem rival !

terça-feira, 7 de março de 2006

Labor de Luto: desidealizações

O trabalho de luto vai prosseguindo, paulatinamente...

Dissoluto regozija-se com a descoberta e aceitação d´a falha, que é a marca suma da humanidade!

Eis algumas expressões d´a falha, na sua acepção mais narcísica: sinal de incompletude, de imperfeição e de finitude.



Punito promete retomar a questão, justificando o seu encanto diante da imperfeição que estes quatro registos revelam.

quinta-feira, 2 de março de 2006

Obsessões (in)Decentes... ou Excitações Confessáveis!!!



Se é verdade que a Fleming possui a mais bela voz (puramente) lírica da actualidade - o que a torna inigualável em Mozart e Strauss, qual Schwarzkopf... -, La MATTILA é a rainha do sex appel lírico-dramático do momento (categoria que acabo de criar).

Já não nos viamos desde esta altura, na cidade-luz.

Estou feliz e radiante por nos encontrarmos em breve ;-))



[A NÃO PERDER! (Keep your condoms on, for your own safety)]

O Verde...

... já foi sinónimo de esperança e aventura.

Desde há três anos, é sinónimo de uma genialidade desarmante, onde o trivial acede à categoria de objecto de arte!

[AA: je ne peux pas me passer de ton espace ;-))) ]

Parabéns, pois!

Um abraço,

João

quarta-feira, 1 de março de 2006

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Luto, Perda, Idealização & Lírica...

As recentes discussões entre dois grandes frequentadores deste blog, a respeito do talento e virtudes de Elisabeth Schwarzkopf, têm-me feito reflectir sobre as questões da idealização e narcisismo, questões centrais e essenciais no contexto da lógica depressiva.


(Elisabeth Schwarzkopf)

Afinal, do ponto de vista compreensivo e explicativo, em que consiste a depressão?

Acima de tudo, a depressão é uma reacção à perda, ou de um objecto de amor (por morte ou desaparecimento do mesmo), ou do amor do objecto (quando este nos troca, abandonando-nos).

Tratar-se-á de uma depressão reactiva, caso a vivência depressiva seja uma resposta emocionalmente proporcional à importância que o dito objecto para nós tinha.
Quando o quadro se torna excessivamente presente e intenso, sendo o trabalho de luto irrealizável, fala-se de uma depressão patológica que, prosaicamente, mais não é do que a incapacidade de realizar um luto, isto é, aceitar a perda do objecto de amor, desinvestindo-o, por forma a poder investir amorosamente noutro objecto.

Ora, um dos mecanismos específicos da depressão patológica é, justamente, a idealização: endeusam-se as qualidades e atributos do objecto de amor perdido, dele fazendo uma criatura exemplar, repleta de virtudes, enquanto se ocultam as dimensões menos virtuosas do dito cujo.

Paralelamente, a agressividade que deveria dirigir-se ao dito objecto - a raiva e o ódio, secundários ao abandono, por exemplo - vira-se contra o próprio sujeito, que assim se deprime!

No essencial e de forma caricatural, o quadro é o seguinte: amo, venero e endeuso alguém, recusando reconhecer no mesmo defeitos, ao passo que me ataco e humilho, exacerbando as minhas fragilidades e defeitos!

É como se, esquematicamente, herdasse tudo o que o objecto detém de mau e nele depositasse o que há de notável em mim.

O que tem isto a ver com a Senhora Schwarzkopf ou com a admiração incondicional que se nutre por algumas figuras da lírica ?

Tudo, tudinho!

Com as devidas distâncias e precauções, creio que a fixação em intérpretes do passado atesta da nossa recorrente idealização, que impede investimentos em figuras contemporâneas, igualmente virtuosas!

Com este discurso, não pretendo questionar a genialidade de figuras como a citada Schwarzkopf , como a Callas, Hotter, Bergonzi, Tebaldi, Kunz, etc. Longe de mim!
Pretendo, tão só, relativizar a importância das mesmas criaturas.


(Elisabeth Schwarzkopf e Maria Callas)

Admiremo-las, sem as endeusarmos! Aprendamos a reconhecer-lhes dimensões menos virtuosas, que obviamente coexistem com as qualidades que as fizeram aceder ao estrelato!

A Callas, que era magnifica, era uma prepotente, uma autocrata !
A Schwarzkopf, cujo timbre delicado, pueril e aristocrático nos fascina, entretinha-se a achincalhar os desgraçados dos alunos!
A soberba Cossotto, antes das récitas, enviava bilhetinhos com votos de mau agoiro aos colegas!

Pela parte que me toca, procuro que a indesmentível admiração que nutro pelos meus mestres da lírica - Hotter, Callas, Schwarzkopf, Kraus, Varnay, Nilsson, Corelli, Price, Vickers, etc. - não me impeça de apreciar os grandes intérpretes da actualidade, igualmente geniais: Terfel, Stemme, Mattila (uiiiiiii!), Domingo, Meier, Heppner, entre outros.

(sem comentários...)







domingo, 26 de fevereiro de 2006

Da hipomania (lírica)

A hipomanía é um quadro clínico característico das perturbações do humor.

Na sua definição concorrem - além da euforia -, a agitação psico-motora, a diminuição da necessidade de repouso, associadas a sentimentos de grandiosidade, optimismo e excitação.

Também na lírica se encontram figuras hipomaníacas, criaturas alheias à fadiga, cujas vidas se desdobram num sem número de compromissos e actividades distintas.



Domingo acumula a direcção das óperas de Los Angeles e de Washington, tarefas (ligeiríssimas!) que se somam à sua (interminável, felizmente!!!) carreira de intérprete lírico - onde detém um recorde de interpretações (sensivelmente 110 papeis operáticos no reportório, coisa singela!!!!) -, não esquecendo a direcção orquestral (porventura a menos brilhante da sua multifacetada genialidade).

Villazón - tão latino quanto Domingo - desdobra-se em diversificadas interpretações líricas (ele é ópera, ele é lieder, ele é repertório russo, italiano, francês, alemão, ufffffffff).

A avaliar pelo vídeo promocional que acompanha o seu último trabalho discográfico (este), a sua hipomanía bordeja o furor maníaco: o dito vídeo extenua-nos, tal é a agitação de Rolando, sempre banhada em águas eufóricas!!!



(Ou muito me engano ou ainda vais acabar a tomar sais de lítio, caro Rolando!)

Maternidade...

sábado, 25 de fevereiro de 2006

Off Opera

O L´Express propõe um estudo comparativo de seis diferentes interpretações contemporâneas de sonatas para piano, de Beethoven.

Haunted Heart?!

D´habitude, je regarde ce type de projets musicaux d´un air plutôt méfié?



Bien que la voix soit sublime et l´interprète de fasse remarquer, depuis des années, les projets crossover sont (très) souvent assez pénibles!

Vous me direz ce que vous en pensez.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Expressões narcísicas no estrelato

Na lírica, nomeadamente, o estrelato associa-se a uma expressão narcísica de dimensão invulgar: sobranceria, arrogância, omnipotência, triunfalismo, desprezo pelo labor e qualidades alheias, porte altaneiro, paralelamente à projecção de uma imagem-de-si grandiosa e invulgar.

O desamor travestido de uma pseudo-segurança e auto-confiança.



Penso na Callas, mal-amada desde o berço até às garras do Armador, que ao trocá-la reabre a imensa ferida narcísica da grega.
Camuflou com eficácia a sua dor primária, sob o manto da omnipotência: tudo cantou e interpretou, ignorando os próprios limites.



Penso, igualmente, na Gheorghiou, que recentemente declarou ao Le Monde de la Musique (com um deslate inusitado), ser a Diva da actualidade, herdeira do talento da Callas.

Que herdou da grega um frágil narcisismo, disso não duvido, quanto ao resto...

Diria tratar-se de uma identificação plenamente narcísica, dada a especularidade evidente do mecanismo e causa: uma réplica espelhada, tout court.

Penso, ainda, na Norman, na Te Kanawa, em Del Monaco, na Anderson, indubitavelmente figuras cimeiras da lírica, incontestavelmente representantes de um amor-de-si peculiar...

Wagner omnipresente, em Paris... (II): aspectos práticos





"
Wagner, wagnériens, wagnérisme", cycle de musique filmée Classique en images à l'Auditorium du Louvre, Pyramide du Louvre, Paris-1er. Métro Louvre. Du 23 février au 20 mars. Tél. : 01-40-20-55-00. Cycle de concerts de 4 à 30 Euros. Musique filmée de 2,50 à 8 Euros. Lectures de 3 à 8 Euros. Rencontre-débat de 1,50 à 4 Euros.

(Aqui e aqui há mais informações)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Contrapontos ao Narcisismo...

...interesses objectais.

O regresso à ribalta de um dos maiores vultos da beleza.









Sobre o regresso da diva:


Últimas aquisições...

Uma Arabella inédita, live from Salzbourg (29/30 de Julho de 1958), com dois dos mais míticos intérpretes desta maravilhosa ópera Straussiana - Della Casa e Fischer-Dieskau -, porventura a mais romântica de todas...

Um plus dificilmente negligenciável: Vier Letzte Lieder, na leitura da mesma Della Casa.



Bela, bela, Mullova acede à categoria dos mid-price. Parecendo paradoxal, não é: dois cd´s a preço de 1!
A PHILIPS "homenageia" a sensual violinista russa, reeditando algumas das suas mais destacadas interpretações.

Pela parte que me toca, optei por duas leituras:

Bach (concertos para violino e 3 Partitas)
(detalhes)

e

Concertos para violino do século XX: Stravinsky, Bartók, Shostakovich e Prokofiev.
(detalhes)

Avizinham-se momentos de puro deleite, na companhia destas duas beldades...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Wagner omnipresente, em Paris...

... só para levantar a ponta do véu:

"(...) du 23 février au 20 mars, vous pourrez voir sur l'écran de l'Auditorium du Louvre l'intégrale des opéras de Wagner et quantité d'archives avec les plus grands chefs et chanteurs d'hier et d'avant-hier (...)".

A ler este artigo do Le Figaro.