quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Férias!!!

Entre leituras e audições operísticas, deleitado, divido a minha fruição.
Como é bom o ócio!

Enquanto Zeus e Atena (sobretudo esta) abrem caminho a que Telémaco procure Ulisses, o amado pai, que se encontra preso, longe de Itáca, von Karajan abre as hostes, numa soberba abertura, conduzida com brio, ora sublinhando o trágico e lúgubre, ora enfatizando a comedia...

Pausa no Canto II; pausa na cumplicidade inicial entre Don Giovanni e Leporello.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Carlos AMARAL DIAS na blogosfera

Eis Um Americano em Lisboa, blog da autoria de Carlos Amaral Dias, meu mestre. A (re)pensar, parafraseando-o.

ELEKTRA, de R. Strauss: um exercício de secundarização

Embora não esteja, hoje, particularmente inspirado, conforme prometera, aqui vai, por fim, a minha apreciação detalhada desta pérola musical e teatral.



(DG 00440 073 4095)

A glória desta magistral interpretação, da mais brutal das óperas de Richard Strauss - Elektra, de sua graça -, radica na direcção de Böhm, na composição de Rysanek e, acima de tudo, no labor de mise-en-scène, que conta com a assinatura de Götz Friedrich.

A prodigiosa encenação de Friedrich - que data dos anos 1980, sendo intemporal - sublinha o óbvio, qual Ovo de Colombo, exacerbando-o, até aos limites do representável.

Elektra é uma ópera crua, despudorada e selvática sobre a brutalidade, dominada pela libido, na mais categórica das acepções do termo, como Freud o concebeu: expressão da agressividade e da sexualidade.
O encenador compreendeu esta dualidade, explorando-a e representando-a, como poucas vezes tive ocasião de ver, em matéria de produção operática, claro está!

Por que falo de óbvio?! Justamente, porque a tónica da encenação é colocada na incompatibilidade inexorável de dois mundo, clivados em absoluto: o de Elektra - monocromático (predominantemente cinza, com dégradés, alusões a um luto paterno inelaborável, que domina toda a trama), brutal, primário, rochoso e desgrenhado - e o de Klytämnestra - sofisticado, ornamentado até à exaustão, dominado por um erotismo perverso e luxuriante...

Plasticamente, esta concepção é alvo de um trabalho memorável, sendo os contrastes sublinhados com grande mestria: os mundos de Elektra e de sua mãe - absolutamente antagónicos - são entremeados por uma coluna clássica, de uma simplicidade notável!

O elemento clássico - riquíssimo, do ponto de vista simbólico, a começar pelo equilíbrio que encerra - sublinha as diferenças, assumindo-se como um marco de fronteira (e alternativo, se quisermos, à insanidade e perversão...), que se distingue de um e de outro dos universos, radicalmente.


Que eficácia singela! Notável!!!


A direcção de Böhm - que dirige pela derradeira vez, em estúdio, se não me engano - é meticulosa, muito precisa mas visceral: a rica expressividade orquestral é extraída com uma astúcia calculada, absolutamente controlada, roçando a perfeição, pela excelência...
De início, os tempi poderão chocar os mais ortodoxos, pela lentidão, mas logo nos habituamos!

Vamos aos solistas...

Vergo-me vezes e vezes sem conta diante do talento de La Rysanek, straussiana absoluta.
Nesta interpretação, pela primeira e única vez, Leonie Rysanek encarna o papel titular da ópera - antes encarnara Chrysothemis e acabará a carreira na pele de Klytämnestra.
Esperou pelos cinquenta anos para o fazer, cedendo à sábia sugestão de Böhm.

A maturidade interpretativa domina a figura complexa e brutal de Elektra: a expressão alienada, o ódio, o rancor, o desespero, a imensidão da dor ganham asas na leitura de Rysanek, que se afirma como Elektra definitiva (brutal, como a de Nilsson e de Marton, mas mais feminina; colossal como a de Polaski, ainda mais humana que a de Behrens...).
A voz está mais madura e escura do que outrora - como se quer! -, veiculando de forma plena toda a complexidade da protagonista.

Astrid Varnay, no seu auge, encarnou também o papel titular da ópera, tendo mesmo sido considerada uma das suas intérpretes de referência, sobretudo pelo volume dramático e vocal que imprimia a Elektra.

Pessoalmente, sempre apreciei o seu arrojo e histrionismo, inversamente proporcionais à falível técnica.


Nesta interpretação, Varnay (bem entradota na idade...) compõe uma Klytämnestra tremenda, recorrendo à notória falibilidade vocal de forma assaz inteligente: coloca-a ao serviço da construção dramática da decadência! A voz fatigada e o crescentemente incómodo vibrato esbatem-se de forma impressionante, diante da espessura cénica de Astrid Varnay! Voilà, rien que ça! Eis o que, no meu modeste entender, constitui um exemplo sumo de «inteligência musical»!


A Chrysothemis de Ligendza é muito convincente, sobretudo em termos interpretativos.

Não tendo uma voz particularmente bela (antes pelo contrario... ácida e insegura, nas passagens mais agudas), Catarina Ligendza envolve-se num jogo dramático de forma arrebatadora, conferindo à personagem uma dimensão pueril extraordinária. A sua Chrysothemis encontra-se radicalmente presa a um conflito com contornos histéricos, irresolúvel: anseia pela maternidade, deseja assumir a sua feminilidade, tanto quanto as teme...


Destacaria, por último, a prestação de Fischer-Dieskau, maduro, bem trabalhado, altaneiro e soberano.
A cena que constrói com Elektra - desde o reconhecimento, até à concretização da vingança - constitui, a meu ver, o ponto alto desta notável récita: de uma riqueza dramática transcendente, pontuada pelo fascínio e pelo horror...


Enfim, uma magnifica interpretação, encabeçada por um elenco assumidamente sénior, que se move numa encenação assente em infinitos desdobramentos da crueza, cuja expressão - quase pornográfica! - é avessa aos limites...

Um valor seguríssimo, interdito a menores de 30 anos, porque prolixo em cenas altamente chocantes...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

MET - 75 anos de transmissões radiofónicas

Amanhã, Sábado, 17 de Dezembro, pela 75º vez, têm início as famosas e louváveis transmissões radiofónicas de ópera, Live From Met. No âmbito das comemorações do evento (?), eis uma inteligente forma de aliar espírito comercial (leia-se interesse pelo vil metal) e preservação de um imenso património artístico.

By the way, a récita de amanhã (Rigoletto, de Verdi) conta com duas estrelas do firmamento lírico actual, cujo mérito é - a meu ver, claro está! - altamente discutível... Falo da bela, sensual e fogosa Netrebko (c´est tout, voilà ce que j´en pense!) e do latino Villazón (artistica e tecnicamente bem mais sólido que a sua partenaire...).

A ler e - para os fans - escutar.

Balanços, saldos, ciclos

Em época de (cíclicos) balanços, avaliações e saldos, o NEW YORK TIMES oferece-nos uma longa (4 páginas) revisão das interpretações discográficas mais destacadas do ano que ora finda.
A consultar.

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

PALAVRA do SENHOR...



Jamais a relação do homem com a TRANSCENDÊNCIA foi abordada de forma tão pueril, singela, profunda e metafísica.

A colossal obra de Dreyer, que de forma magistral condensa todas as posições possíveis diante da relação com o DIVINO e a TRANSCENDÊNCIA - ortodoxia, heterodoxia, cepticismo, crença, alienação, racionalismo, fé... -, é milagrosa: longe de a REVERSIBILIDADE decorrer da omnipotência humana, a mesma é secundária à fé (no CRIADOR).

A PALAVRA - criação definitiva - constitui um momento ímpar na compreensão destas questões.

Agora, depois de a visionar, com um indescritível deslumbramento, já não sou o que era.


Para ti, Tiago, que és o maior dos meus amigos,

João

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Crise do mercado discográfico...

...este artigo prova-nos que o chavão "crise de vendas", particularmente no tocante à música clássica, tem muito que se lhe diga! Veja-se o desmesurado sucesso que a holandesa Brilliant tem vindo a alcançar, praticando preços espantosamente baixos.

Atenção... A Senhora Bartoli só grava o que quer e quando quer!!!

sábado, 10 de dezembro de 2005

Softcore...

Soberbo, este Billy Budd!


(ARTHAUS MUSIK 100 278)

Paradigmático de uma lógica perversa, diametralmente atravessado por um sadomasoquismo terrificante.

A encenação equaciona escuridão a perversão e clareza a inocência: Allen translúcido, magnifico, pela expressividade infinita - ora cândido, ora naif, mas sempre, sempre jovialmente inocente... arrebatador; Van Allan - na interpretação da sua vida - obscuro, opaco, majestoso na infinita malignidade perversa, sequioso de carne... Odioso no calculismo e na intriga; Langridge algures entre a Luz e as Trevas, mortificado pela culpabilidade... Esplêndido, pela humanidade, movendo-se titubeante em terrenos marcados pela conflitualidade...

O universo de Britten magistralmente caracterizado, em toda a sua polissemia: exclusão, desvio, alheamento, soturnismo, culpabilidade, medo, amor, ódio, singeleza...

Muito para além da trivialmente percepcionada luta entre conservadorismo-repressão-britanismo e espírito libertário-francofonismo, aqui, é a singular psicologia de Britten que se explana; dela, muito pouco é dito com clareza... quase tudo é sugerido, com pudor.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Hardcore...


A brutalidade visceral, o horror, a lascívia, o asco e a decadência entram no domínio do sublime, por esta via.

Ansiei anos a fio pela reabilitação desta obra-maioríssima.

O cadáver exumado ganha vitalidade, eternizando-se. Para todo o sempre, para todo o sempre...

De enlouquecer...

Por ora, nada mais posso acrescentar, submerso que estou por esta experiência insólita...
As representações desta vivência virão depois, quando a alma retomar o seu reencontro com a minha matéria carnal...

A Elektra de Strauss envolta na mais indescritível e magnética forma que a criação humana pode conceber.

7 de Dezembro... : 2-1, a favor dos anglo´s

Ainda o caso alla Scala´s Opening night!

Depois de ler esta abonatória crítica (in New York Times), pergunto-me se as dispares visões clivadas a respeito da première de Idomeneo, em Milão, não serão actualizações do ancestral conflito que opõe francófonos a anglófonos: afinal Daniel Harding - il maestro - é britânico e brilha muito...

Paira no ar um confronto de subjectividades ou - para retomar o meu estilo prosaico - cheira a inveja?

7 de Dezembro: (glorioso) dia 1º da Era Lissner

Perplexidade, espanto e estupefacção: eis a tríade que domina a minha mente, depois de ler uma crítica (outra...) absolutamente antagónica à que aqui coloquei, ontem, relativamente à abertura da temporada do alla Scala.

A subjectividade tem destas particularidades...

Não pretendendo apregoar um discurso monolítico - nomeadamente no que toca à apreciação crítica sobre a criação (seja ela de que natureza for...) - e sendo certo que a singularidade e subjectividade devem imperar, em matéria de apreciação da expressão - mais que não seja porque definem a condição humana! -, não deixo de me questionar (sempre) diante de visões em tudo antagónicas...

Em jeito bem mais prosaico, ao meu estilo, pergunto se os senhores do TELEGRAPH e do LE MONDE estiveram presentes na mesma soirée?

Que a produção de Bondy suscite polémica, não me espanta; espanta-me, sim, que duas criaturas teçam considerações técnicas (objectivas, pergunto?!) radicalmente diferentes, por exemplo, a respeito das prestações vocais dos intérpretes!

Pensemos nos limites da subjectividade / objectividade, eis a minha proposta!

7 de Dezembro: (negro) dia 1º da Era Lissner

As criaturas - como eu - que padecem de operite crónica aguardam com notória ansiedade a soirée milanesa de 7 de Dezembro, data que marca o início da temporada lírica naquela faustosa cidade .

Ora, pelo que aqui pude ler, nem tudo corre bem pelas bandas do alla Scala: Bondy altamente contestado, para não falar nos intérpretes, no maestro Harding... e no público!

Aguardam-se melhores dias.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Mozart, Così e McVicar

McVicar, a propósito da sua última encenação de Così Fan Tutte, para a Opéra national du Rhin:

«Cosi est une merveilleuse histoire au sujet de l'amour et de l'innocence. Son message est que l'on ne peut pas être humain sans être triste. Nous devons quitter le jardin d'Eden et manger la pomme.»

(in Le Figaro, 6 de Dezembro de 2005)

Interessante tirada, esta, em que o encenador identifica inocência a felicidade e crescimento a perda.

Prosaica, mas sábia, esta evocação do labor de luto, que a expansão e o crescimento contêm, acarretam e implicam.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

segunda-feira, 28 de novembro de 2005

Kózena e Daniels, ontem na Gulbenkian - crónica solta...

Ela foi insidiosa... Entrou de mansinho, a voz foi-se abrindo, aos poucos, qual flor graciosa. Por fim, dela, brotava uma luminosidade incandescente, estonteante! De um lirismo inconcebível...

Ele entrou algo parco e contido, prudente até à exaustão. O volte-face veio na segunda parte. Triunfou na bravura; arrebatou pelo folgo desmesurado. Transcendeu-se...

Aos poucos, isolados, materializaram momentos de milagre.

Por fim, nos encores, excederam-se na expressão, na disciplina e na técnica.
Terminaram onde haviam de ter começado!

Longe de um concerto de antologia, ambos foram brilhando...

domingo, 27 de novembro de 2005

Terfel...

Bilhete Disponível: hoje, às 19h na Gulbenkian


Tenho 1 bilhete a mais (segunda-plateia, fila 2, lugar 23, a preço de bilheteira, como é óbvio...), para o concerto de hoje, às 19,00, na Gulbenkian, com os soberbos David Daniels e Magdalena Kózena, num programa barroco, absolutamente imperdível!!!

Advirto que a lotação está esgotada.

Mais detalhes, aqui.

Se está interessado(a), por favor, contacte-me para il.dissoluto.punito@gmail.com, até às 18,00h de hoje.

sábado, 26 de novembro de 2005

Vinheta clínica: a personalidade obsessiva, na lírica


(Dessay & Vargas: Roméo et Juliette, Met, 21 de Novembro de 2005 - in Le Monde)

O perfeccionismo, rigor e disciplina da Grande Senhora DESSAY - a quem fiz referência aqui, nomeadamente - ilustram facetas das personalidades obsessivas, no sentido mais clínico do termo.

Parabéns Ritinha!


És a mais novinha das minhas sobrinhas e hoje comemoras o primeiro ano de vida!
Que contes muitos, minha querida!!!

Votos de felicidade dos tios babosos,
Margarida e João

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Morte, sem retorno... James KING (22.05.1925 - 22.11.2005)

Apagou-se o mais baritonal dos tenores: James King.



A lírica perde o último grande Bacchus...

King, que brilhou no repertório alemão romântico, foi um Parsifal lendário, um Lohengrin de referência... Potente, pujante e ousado...

So long...


(ORFEO C 557 051 B)